O quanto longe estamos da revolução?

Ocupa CTBLejeune Mirhan *

Quando iniciei minha militância comunista em 1975, ingressando nas fileiras do PCdoB com apenas 18 anos, já estudante universitário, eu tinha duas vontades pessoais. Uma delas ir para a região do Araguaia, onde pensava ainda existir uma luta guerrilheira. A outra era de participar ativamente da revolução brasileira.

Todos os primeiros documentos que li no início, na análise da situação nacional, o Partido sempre mencionava a questão do “caráter da revolução”. Sempre atento à correlação de forças em cada momento. Isso, para os comunistas, é questão chave, desde que Lênin, o que materializa a teoria de Partido lançada por Marx e Engels no Manifesto Comunista de 1848, sempre nos ensinou em diversas de suas obras.

A palavra mágica da nossa escola comunista sempre foi essa: “correlação de forças”. Quase que encantadora. Quando idealizamos alguma situação, uma nova proposta, atingir uma meta, temos que levar em conta o inimigo principal (deixando de lado os secundários), quem são nossos aliados nesse período, ou seja, com quem podemos contar e quais seriam os objetivos a serem atingidos, em que momento isso deve se dar.

As ordens mundiais que vivemos

Todos nós, da minha geração (meu “maio de 1968”, deu-se em maio de 1977), quando começamos a ir para as ruas na reorganização da UNE e que ainda perduram na senda comunista nos perguntamos sempre: o quanto longe está a revolução brasileira? E o socialismo?

Não pretendo teorizar sobre isso. Apenas introduzir alguns componentes históricos para podermos chegar na atual quadra que vive nosso país, com uma ditadura midiática-judicial instalada.

Na história mais recente da humanidade, vivemos diversas “ordens mundiais”. Todas de vida curta ou bem menor do que a oriunda de Westfália (1648-1922). A primeira mais marcante inicia-se com o tratado de Versailles de 1919, assinado pelos vitoriosos da Primeira Guerra Mundial, onde surge e Liga das Nações/Sociedade das Nações. Eles dividem o mundo segundo a sua área de influência e buscam a consolidação do capitalismo (no Oriente Médio ocorre em 1917 o acordo de Sykes-Picot). Essa “nova” ordem perdura até 1944-1945 (Bretton Woods, fundação da ONU em substituição da Liga das Nações e fim da Segunda Guerra). É o período onde a libra esterlina entra em decadência e é substituída pelo dólar como moeda de troca nas transações comerciais internacionais. Portanto, essa “ordem” dura 20 anos apenas.

A nova ordem emanada desse período – ainda que o grande vitorioso dessa guerra mundial tenha sido a URSS e o seu glorioso Exército Vermelho – abre um período na história da humanidade de um mundo bipolar com apenas duas grandes potências no cenário mundial, os chamados players – ou seja, os aliados dessas duas potências. Abre-se ainda o período da chamada “Guerra Fria”. A partir de 1947 inicia-se a onda anticomunista em todo o planeta (no Brasil, o Partido Comunista do Brasil é fechado nesse ano; nos EUA passa-se a viver o chamado macarthismo).

PalestinaA partir de 1971, a China passa a integrar o Conselho de Segurança das Nações Unidas como membro permanente, ou seja, com direito de vetar resoluções (todos devem saber como funciona esse Conselho; são 15 membros no total, mas apenas cinco permanentes e com poder de veto; são eles: EUA, França, Inglaterra, Rússia e China; os outros dez são rotativos, têm mandato e se alternam). E temos que entender a “democracia” desse órgão da ONU. Uma resolução por mais apoio que tenha, e mesmo se em uma votação o resultado for 14 a um e se esse um voto for de um desses cinco países com poder de veto, a resolução está rejeitada.

A ordem de 1944/1945 dura mais tempo que as anteriores. Ela perdura até 1991 durando, portanto, 46 anos. Em dezembro desse ano a bandeira soviética é arriada do Kremlin, sede do governo da URSS e substituída pela bandeira russa de 1917 da época do czarismo. Dois anos antes, o Muro de Berlim havia sido derrubada e caíram todos os governos ditos comunistas do leste europeu. Após essa hecatombe sobreviveram tão somente a China, o Vietnã, Cuba, Laos e a República Popular Democrática da Coreia. Os EUA, liderando uma força internacional de guerra com meio milhão de homens, agride o Iraque e o derrota.

Abre-se um período extremamente difícil na história da humanidade. Saímos de um mundo bipolar para um mundo unipolar. A ONU fica praticamente subserviente aos Estados Unidos. Acabam-se praticamente os vetos no Conselho de Segurança. A última revolução presenciada nos moldes clássicos – armadas e de tomada de poder – havia ocorrido na Nicarágua em 1979, quando os Sandinistas venceram a luta popular.

A atual ordem mundial

Não podemos afirmar ainda que já demos início a uma nova ordem mundial. A potência dos Estados Unidos segue forte, ainda que decadente. Militarmente é o país mais forte, mas tem a maior dívida externa do mundo, de quase 15 trilhões de dólares (equivalente ao seu PIB). No entanto, desde 1991, que passamos a viver a chamada defensiva estratégica, jamais paramos de lutar contra o imperialismo e a dominação da finança nessa época de neoliberalismo e de capitalismo financeiro.

Desde então, a China se consolidou como um polo, da mesma forma que a Índia na Ásia. A União europeia surge em 1º de janeiro de 1993. E o Brasil, em especial depois de 2003, se consolida como potência regional na América do Sul. Surge o BRIC, que vai virar BRICS em 2011 com o ingresso da África do Sul. Em 2014, no Brasil, com Dilma presidente, em Fortaleza, Ceará, no mês de julho é criado o Banco dos BRICS para apoiar os desenvolvimentos de países.

No entanto, nesse mesmo período, ocorrem várias agressões. Em 2001 contra o Afeganistão. Em 2003 no Iraque. A partir de 2011 na Líbia e na Síria. E tantos outros. Ainda que a multipolaridade vá se consolidando, ainda são os EUA que dão as cartas. Mas não por muito tempo.

Aqui eu tenho defendido uma data, ainda que simbólica, de qual seria o marco dessa nova ordem mundial que está sendo edificada (ela não tem um marco específico como foi 1922 e 1944). Ela é um processo em desenvolvimento ainda. Não quer dizer que está consolidada. A simbologia da data se relaciona com o dia 4 de fevereiro de 2012, quando, pela primeira vez em muitos anos, a Rússia e a China – juntas – vetam uma proposta de resolução para a ONU autorizar uma ajuda “humanitária” ao povo da Síria, nos mesmo moldes do que havia sido um ano antes, em 2011, contra a Líbia, completamente destruída pelas forças da OTAN e seu presidente brutalmente assassinado. Esse é o marco mais emblemático que posso identificar nesse período, nem sempre de forma que chama a atenção dos analistas internacionais.Irã

A situação no Brasil

Não pretendo me alongar sobre o golpe parlamentar desfechado aqui em nossa pátria, que completou um ano no dia 12 de maio de 2017. Após a derrubada de uma presidente legitimamente eleita com 54 milhões de votos, instaura-se no país um governo ilegítimo, completamente corrupto (metade dos seus 22 ministros estão sendo investigados ou são réus em processos judiciais). Milhões e milhões de reais foram distribuídos comprovadamente, para figuras nefastas como Temer, Renan, Jucá, Sarney, Maia, Padilha, Moreira e tantos outros lixos humanos.

O golpe foi dado pelo Partido da Justiça, orquestrado pela mídia, tendo à frente a rede Globo de Televisão. Os partidos como o PMDB e PSDB, hoje expoentes da direita no país, associados aos DEM, PPS, PSD, PTB, PP e outras siglas inexpressivas apoiaram não só a instalação desse governo ilegítimo, como tramam agora a retirada de direitos dos trabalhadores brasileiros, alguns datados de mais de sete décadas (desde a CLT de 1943). Tramam contra a aposentadoria do povo, em especial dos mais pobres, que jamais se aposentarão na vida e, o principal, a entrega do nosso pré-sal.

E, no balcão de negócios que virou o Congresso Nacional, existe o sério risco dessas matérias serem aprovados, mesmo que mais de 90% da população seja contra e queira a saída do governo ilegítimo de Temer. A terceirização já foi aprovada. A reforma trabalhista – cujo aspecto mais marcante é o negociado sobre o legislado – já está no Senado. A reforma da previdência já foi aprovada na Comissão Especial, faltando apenas o rolo compressor do plenário.

Desde meados de 2015, quando as perspectivas de golpe estavam cada vez mais claras – pelo menos para os setores mais lúcidos da esquerda – formamos a Frente Brasil Popular, da qual já falamos muitas vezes. A FBP tem suas seções em todos os estados e nas maiores cidades e capitais. Sua espinha dorsal tem sido os partidos PT, PCdoB e PCO (a depender da localidade o PDT compõe) e as centrais CUT e CTB. As principais entidades representativas da sociedade civil a integram, como a UNE, entidades de mulheres (UBM e Marcha), UNEGRO, entidades de jovens (UJS, JPT e Levante), entidades comunitárias (CONAM e CMP), MST, Pastoral Operária, LGBT entre tantas outras. Tenho a honra de estar representando o PCdoB desde agosto de 2015 na FBP de Campinas, que é a 12ª cidade do país.

Aqui em nossa cidade realizamos nesse período pelo menos 12 grandes atos e demonstrações públicas. Algumas com até 20 mil pessoas, como foi a grande passeata – a maior da história de Campinas – do dia 28 de abril, dia da Greve Geral, que viveu também a maior paralisação de atividades na cidade (estimamos que em torno de 300 mil trabalhadores/as cruzaram os braços). Mais de 60 reuniões foram realizadas, muitas plenárias – algumas com mais de 120 pessoas.

Dar um salto adiante

Escrevi há pouco tempo um artigo de análise da maior greve geral da história deste país, que paralisou entre 35 e 40 milhões de trabalhadores/as em 28 de abril (aos que quiserem lê-lo cliquem neste endereço: http://lejeune.com.br/index.php/blog/politica-e-conjuntura-nacional/187-greve-geral-do-dia-28-de-abril-poe-a-luta-do-povo-em-novo-patamar-2).

Ainda que a Frente Brasil Popular venha crescendo e se fortalecendo, angariando respeito de parcelas cada dia mais amplos da população, ela por si só não dará conta de um enfrentamento desse governo direitista, impopular, entreguista e corrupto. Para isso fizemos uma aliança história com a Frente Povo sem Medo, que tem o MTST e a Intersindical como coluna mestra de sustentação.

Mas, também só isso não teria sido suficiente para o sucesso que tivemos na greve de 28 de abril. As nove maiores centrais sindicais do país, que representam mais de 80% de todos os sindicatos existentes e de todos os trabalhadores brasileiros, se unificaram em pontos comuns (contra todas as reformas) e chamaram a Greve Geral. Um verdadeiro sucesso. Mas, qual o passo seguinte?

De ora em diante, entramos em um terreno de opiniões pessoais, ainda em debate no conjunto da esquerda. Poucos são os partidos de esquerda e organizações populares que já têm opiniões formadas e amadurecidas sobre o que fazer agora. Do lado do governo, nada os intimida. Temer sabe que recuar nas reformas pode significar o fim de seu governo.

As restrições às liberdades de manifestação, de ir e vir vão ficando cada dia menores. O complexo midiático golpista fica cada dia mais raivoso. Essa gente, a camarilha que tomou o poder de assalto, vai odiando cada dia mais o nosso povo. Cria-se um abismo entre a população e os que ocupam ilegalmente o governo. Apenas 4% ou ainda menos os apoiam e as suas reformas.

Que fazer nesse cenário conflituoso? Quais os limites da luta política de massas? Como enfrentar as cada dia mais agressivas polícias militares, a força nacional e quem sabe até as forças armadas um dia de amanhã? Aumenta o número de prisioneiros políticos e condenações de cidadãos que participaram de alguma manifestação de rua. O poder judiciário completamente contaminado pelo Partido da Justiça, já nem disfarçam mais as suas intenções. Querem mesmo o poder total, ganhando os salários mais exorbitantes que se paga no serviço público. Verdadeiros marajás.

Ninguém faz absolutamente nada. O STF, parceiro e legitimador do golpe nada fez e nada fará. Não penso que ele desmontará a farsa jurídica em curso para condenar Lula e tantos outros, em especial José Dirceu, ícone da esquerda da geração de lutadores que me antecedeu. E não tenhamos nenhuma ilusão: as coisas vão piorar, pois a derrocada do Brasil está dentro dos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Como disse no início, a geração que iniciou a sua militância quando da minha juventude, nos idos de 1975, sonhava com a revolução e com a conquista do socialismo. Há 30 anos, em 1987, nas comemorações dos 70 anos da revolução russa, lembro-me de uma dedicatória que o saudoso camarada João Amazonas fez em um dos seus livros para minha filha Alice, à época com apenas cinco aninhos. Ele escreveu assim: “Para Alice que viverá feliz no socialismo”. Viverá mesmo?

Nossa geração de lutadores foi formada na escola que dizia que o poder “se toma”. Hoje vê-se que o poder “se ocupa”. Estavam erradas as teorias anteriores? Jamais veremos revoluções populares como as chinesas, cubanas, russa e vietnamita – ainda que cada uma ao seu estilo?

Aqui entra a questão da correlação de forças. Não há a menor possiblidade de que qualquer enfrentamento mais vigoroso, de combate, com as forças que apoiam o governo ilegítimo, sejam as forças políticas parlamentares, as forças midiáticas e as forças de repressão. Tentar hoje adotar atos de bravura em enfrentamentos voluntaristas ditos revolucionários seria o maior erro que qualquer agrupamento podería cometer.

O caso iraniano e palestino

No entanto, precisamos estudar dois episódios da vida política de dois povos. São eles o povo iraniano (persa) e o povo palestino (árabes, filisteus de origem). Por força de minhas atividades como analista internacional, estudo o Oriente Médio há mais de 30 anos (dos meus nove livros editados, cinco são sobre o mundo árabe).

Se o ano de 1979 marcou a tomada de poder pelas armas pelos sandinistas – a última revolução por esse processo – no Irã as coisas se deram completamente diferentes. Ainda que tenham havido conflitos armados, estes foram muito localizados, a marca da Revolução Iraniana foi a insurrecional. Tomou-se o poder por levantes de milhões de operários e trabalhadores em geral, sob a liderança de uma aliança entre comunistas, socialistas e religiosos. Apenas uma pequena parte das forças armadas ficou fiel ao ditador e xá Reza Pahlevi, que fugiu do país (morreu nos EUA). A grande maioria passou para o lado do povo. E foi abolida a monarquia e instaurada uma República.

Outro caso que precisamos estudar mais é dos palestinos, sob a liderança da OLP. Em 15 de novembro de 1988, na cidade de Argel, na Argélia, o Conselho Nacional Palestino, sob a liderança de Yasser Arafat, do Partido Fatah aprovou, por esmagadora maioria, uma resolução que eles chamam de “Proclamação do Estado da Palestina”. Eles abdicaram da luta armada como forma de expulsão dos sionistas ocupantes da Palestina e mais do que isso: passaram a reconhecer a existência do Estado de Israel.

Adotaram a tática da luta política de massas, das greves gerais, dos boicotes aos produtos israelenses e – o mais importante – passaram a enfrentar as forças armadas israelenses com as armas de que dispunham: paus, pedras, fundas, barricadas. É a chamada resistência não violenta, não letal. A partir dessa nova orientação, duas grandes Intifadas ocorreram. Essa palavra árabe significa “revolta, levante”. Era uma forma de atacar os soldados israelenses com paus e pedras. Todas elas duraram muitos meses e tiveram repercussão mundial.

A independência da Índia foi conquistada em 1947 (mesmo fatídico ano que a ONU aprova a criação do Estado de Israel). Ela ocorre sob a liderança e influência de Mohandas Gandhi, Mahatma (“grande alma” em sânscrito), que pregava a resistência não violenta, sem uso de armas (ele mesmo acabou sendo assassinado por um fanático).

Não que se esteja descartando, em perspectiva, uma radicalização maior das massas populares. Mas, não há hoje correlação de forças para isso e nem mesmo consciência política e revolucionária acumulada para que tomemos essa decisão. Nesse sentido, de meu ponto de vista pessoal, a melhor tática agora é combinar a mais ampla unidade política, transformando em uma só vontade do povo e da Nação e do conjunto das suas entidades representativas e partidos comprometidos com a defesa do país, com seus intelectuais, com os religiosos mais avançados, com o campesinato e o proletariado rural e urbano.

É preciso organizar grandes levantes populares, onde isso for possível. Dar enfrentamento à repressão com o que se têm disponível, tal qual os palestinos. Ocupar cidades – como a Capital federal que está marcada para o próximo dia 24 – ou repartições públicas, enfim, tudo que dê demonstração de grande força política de massas. Sabemos que isso, ainda assim, poderá ter um custo em vidas humanas se houver radicalização das forças policiais. Mas, qualquer perda nesse sentido será de responsabilidade exclusiva dos ditadores civis que tomaram de assalto o poder. Até o instrumento de greve de fome pode ser adotado, para chamar a atenção da comunidade internacional.

O povo há de se levantar até que acabe a tirania, até que se restabeleça a vida democrática, até que se revogue todas as medidas antipopulares, contra os interesses da pátria e da Nação. Até que se devolva tudo que se tomou da União, em especial as riquezas do pré-sal.

É preciso debater melhor esse tema. Até para nortear a nossa atuação junto às frentes de massa, organizações horizontais, que são os bons exemplos que temos visto na atualidade, que são as frentes Brasil Popular e a Povo sem Medo. Sem nos esquecermos do Fórum das Centrais, que reúne todas as nove centrais sindicais que chamaram a Greve Geral do dia 28 de abril e agora chamam à Ocupação total de Brasília.

* Sociólogo, professor universitário (aposentado), escritor e analista internacional.