Os Trabalhadores e a Revolução Egípcia

O mundo foi pego, com certa surpresa, com as imensas manifestações ocorridas no final de 2010 na Tunísia, que resultaram na queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali em 14 de janeiro e desde o histórico dia 11 de fevereiro na queda do ditador Hosni Mubarak, “presidente” do Egito desde 1981. Nos 18 dias de manifestações na Praça Tahrir (Libertação em árabe), que mobilizaram no Cairo e nas maiores cidades egípcias mais de 10 milhões de cidadãos – o Egito possui 80 milhões de habitantes – parecia que a revolução em curso não tinha nenhuma face, nenhum líder e nenhum rosto. Que era obra do espontaneismo.

Quando muito, dizia-se que os “jovens estariam no comando”. Mas, e os trabalhadores egípcios, que papel jogaram e continuam jogando nesse processo? Sobre isso, vale a pena tratar dessa temática, quase que completamente ausente nas grandes matérias que os correspondentes dos jornais da grande imprensa brasileira enviaram do Cairo diariamente. Uma revolução em curso? Um debate que já se coloca no momento é se esta em curso no Egito uma revolução. Como disse Lênin, as condições objetivas para que uma revolução aconteça é que “os de cima não mais conseguem governar como antes e os de baixo já na aceitam mais ser governados como antes”. Assim, objetivamente falando, há uma situação revolucionária criada no Egito. Resta-nos saber para que rumo ela pode pender neste momento e qual será mesmo o seu caráter. Mubarak renunciou no último dia 11 de fevereiro, mas o poder não foi transferido para um governo provisório, de união nacional, civil, que representasse, digamos, as forças que lideraram os protestos na Praça Tahrir. Muito ao contrário. Os militares foram os que ocuparam o poder. Uma junta militar governa o país, sendo que todos, sem exceção, nomeados pelo ditador que se foi. O chefe dessa junta, marechal Tantawi, é o atual ministro da Defesa e era conhecido como o “poodle de Mubarak”. Tem fortes ligações com os EUA e Israel. Uma das suas primeiras declarações foi de que todos os acordos internacionais do Egito estão mantidos – em especial os de Paz com Israel assinado em 1979 por Anwar Sadat e o de cooperação militar com os EUA, que rende ao exército dois bilhões de dólares ao ano! De qualquer forma, há um processo revolucionário em curso. Sua liderança vem sendo disputada, basicamente entre três campos distintos. Um deles, ainda que defenda uma linha mais nacional e secular, tem estilo e propostas mais conservadoras. Como dizia o romance de Giuseppe Tomasi Lampedusa, O Leopardo, “é preciso mudar para que tudo fique como está”. Tem forte presença militar e não alteraria o status quo em vigor, qual seja, de manter o Egito sob completo domínio dos Estados Unidos, como país estratégico em termos de área de influência americana e que protegeria Israel na região. Uma segunda linha, de caráter mais religioso, constitui de certa forma um campo. Pode ser polarizado pela Irmandade Muçulmana, fundada em 1928 e que esta proscrita no país desde 1952 quando Gamal Abdel Nasser assumiu o comando do país. Quase não esteve na linha de frente dos protestos, mas é muito forte no país, pela assistência social que pratica. Com candidaturas avulsas ou por outros partidos, conseguiu, nas eleições de 2005, fraudadas, ainda assim, fazer 20% das cadeiras (algo como uns 80 deputados). Esse parlamento foi dissolvido pela junta militar. Analistas estimam que em eleições diretas eles poderiam chegar a 30% dos votos. Por fim, há um campo chamado de nacionalismo mais laico, de caráter mais progressista e popular. Ele talvez pudesse reeditar o que um dia se chamou de pan-arabismo, criado por Nasser. Esse campo, ainda não de todo unificado, englobaria as organizações sociais de massa, de jovens, mulheres e sindicatos combativos, partidos mais progressistas, os socialistas e comunistas. Uma plataforma mais avançada chegou a ser esboçada por diversas organizações desse campo, mas ainda não pode ser implementada pelo desfecho da junta militar no país. Setores do Islã que não defendem o estado islâmico (sunitas), poderiam fazer uma composição que fortalecesse esse campo. O papel dos Trabalhadores e dos Sindicatos Durante os quase trinta anos da ditadura de Mubarak, os sindicatos foram controlados a ferro e fogo. A central sindical oficial é extremamente moderada e pró-governo. Chama-se ETUF, que na sigla inglesa quer dizer Egipcian Trade Union Federation. Tal entidade não convocou nenhuma manifestação durante as mobilizações populares e em 27 de janeiro chegou a emitir uma nota dizendo que faria de tudo para “conter os protestos dos trabalhadores”. Houve um racha no movimento sindical e uma nova organização surgiu nas lutas, capitaneadas pelos sindicatos independentes de servidores públicos, da área da saúde e alguns de origem operária. Desse movimento, surgiu a Federação dos Sindicatos Independentes do Egito. Os sindicatos de profissionais liberais – que são fortes nesse país e possuem modelo parecido com os que temos no Brasil – estiveram na linha de frente das manifestações. Em especial os sindicatos de médicos, advogados e engenheiros. A prova da força desses sindicatos é a nota da Junta Militar, em seu 5º comunicado, que exorta aos trabalhadores “operários e aos profissionais” a que voltem ao trabalho e encerrem as greves. É preciso destacar que num processo revolucionário geral que vive hoje o Egito, isso também se verifica na esfera sindical. A maioria dos sindicatos são controlados por sindicalistas ligados ao Partido do ditador Mubarak, o Nacional Democrático. Nesse processo, sindicatos foram ocupados e muitas direções foram destituídas. Novas entidade foram formadas. A grande imprensa escondeu, durante a maior parte do tempo, essas mobilizações operárias e proletárias em geral. Mas, foram registradas grandes mobilizações dos operários têxteis da região do Delta do Nilo na cidade de Mahalla, com milhares de operários (a maior concentração operária do Norte da África e mundo árabe); trabalhadores em telecomunicações se mobilizaram; bem como os do setor de limpeza; professores universitários decretaram greve geral; jornalistas tomaram de volta seu sindicato histórico; ferroviários paralisaram atividades; fábricas e instalações industriais foram ocupadas; federação dos aposentados saíram ás ruas. Tudo isso, de modo geral, podemos dizer que o processo revolucionário em curso chegou às fábricas e locais e de trabalho. Vários comitês revolucionários foram criados no processo. Os operários das cidades de Suez, Port Said e Ismaillia, metalúrgicos e siderúrgicos paralisaram a produção. Os seis mil trabalhadores públicos do Canal de Suez cruzaram os braços. Nessa região concentram-se grandes estaleiros, que interromperam suas atividades. Operários das empresas de Carvão e Cimento, no distrito de Halwan também suspenderam o trabalho. Papel de destaque tiveram os petroleiros, que desafiaram o ministro do Petróleo, Sameh Fahmy. São operários da estatal PetroTrade Companhy e as Petroment e Syanco. Ferroviários exigiram a participação nos lucros das empresas. Os motoristas e condutores das empresas públicas de ônibus do Cairo aderiram ao movimento paredista. Enfim, pode-se dizer que o processo em curso contou com elevada participação do proletariado egípcio. As reivindicações gerais das organizações sindicais em luta podem ser resumidas em: 1. Direito ao Trabalho; 2. Salário Mínimo de 150 Euros; 3. Direito à Proteção Social (moradia, educação, transportes e saúde de boa qualidade); 4. Liberdade Sindical e 5. Libertação de todos os presos, em especial, sindicalistas. Do ponto de vista da solidariedade operária e proletária internacional, devemos somar nossas vozes do sindicalismo classista com a revolução no Egito, gritando em alto e bom som: Tirem as Mãos do Egito! Abaixo o Imperialismo! Solidariedade com a Revolução Egípcia! Nossos corações de trabalhadores batem forte com os egípcios.