Prof. Lejeune Mirhan Sociólogo,Escritor e Arabista. Diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SPColunista do Portal Vermelho e da Revista Sociologia Celulares: +5511-99887-1963+5519-98196-3145 Trabalho: +5519-3368-6481

Síria milenar: líder da resistência anti-imperialista

Lejeune Mirhan*

A Síria é país milenar. Provavelmente, o mais antigo de todos os países árabes, ao lado da Palestina, Egito e Iraque. Sua Capital, Damasco, tem pelo menos cinco mil anos de vida continuada comprovada. Desde 2011, quando da chamada Primavera Árabe (sic), vem sendo agredida por terroristas mercenários, à soldo da Arábia Saudita e outros países pró-EUA. Mas, após sete longos anos de sofrimento ao seu povo, o governo sírio junto com seu exército árabe sírio, praticamente venceram a guerra. Vamos abordar neste artigo um pouco da história antiga da Síria, seu processo de arabização, a Síria moderna e seu Partido Socialista Árabe Sírio Baath e os dias atuais e suas perspectivas.

Um pouco da história da Síria

O nome em árabe da República Árabe da Síria é Suryyah. Seguramente, é dos países mais antigos do Oriente Médio. Faz fronteiras com o Iraque, Líbano, Palestina (que nos mapas aparece com Israel), Jordânia e Turquia. Até a primeira Guerra Mundial, antes dos acordos de Sykes-Picot, estabelecidos em maio de 1916, a região era conhecida como Bilad El Sham (Grande Síria ou Levante). Os povos que ali habitavam eram conhecidos como “levantinos” ou Povos do Levante. Essa região sempre foi uma Província tanto do Império árabe quanto do Império Otomano. O Levante era composto pelas atuais Síria, Jordânia, Líbano e Palestina, bem como uma faixa da região Sul da Turquia, predominantemente cristã, cujo centro político e religioso era a cidade de Mardin (hoje em mãos turcas).

A história registra o ano de 1453 quando da queda de Constantinopla (anteriormente chamada de Bizâncio), sede do Império Romano do Oriente, quando os povos de etnia turca tomam a cidade e ali implantam a sede do Império Otomano. Esses povos já haviam se convertidos ao islamismo, portanto eram muçulmanos. Aos poucos e a partir dessa data, o Império Otomano vai tomando para si as terras conquistadas pelo árabes. Assim, podemos dizer de certa forma, que o Império seguiria sendo islâmico, mas havia trocado a etnia de comando, passando dos árabes para os turcos.

No caso da Grande Síria, ela era sede do Califado Omíada, estabelecido pelo terceiro Califa bem orientado (rashidun), que se chamava Otman. Esse califado foi fundado na verdade pelo então governador da Síria, Mouáuia I, logo após a primeira guerra civil islâmica em 661 (ano 41 da Hégira). Por isso a sede do Califado na cidade de Damasco. A partir desse momento, ocorre a maior expansão do império árabe-muçulmano e o maior império que a humanidade havia conhecido até então (epois disso, sería classificado como o quinto maior de todos os tempos na história).

No entanto, com o fortalecimento do Império Otomano, que também vai se expandir no mesmo espaço conquistado pelos árabes e pelo califado Omíada, no ano de 1516, eles chegam à Damasco e a Grande Síria cai inteiramente sob o domínio dos Otomanos. E assim ficará praticamente até o término da I Guerra Mundial em 1918.

A Síria moderna, cuja independência só foi reconhecida em 17 de abril de 1946, quase nada tem a ver em termos de tamanho territorial com o do Levante das épocas dos impérios islâmicos. Ainda que não existam dados precisos sobre a área total do Levante, muitos a estimam em torno de 306 mil Km2, sendo que a Síria dos acordos de Sykes-Picot fora reduzida a pouco mais de 180 mil Km2, ou seja, quase a metade de seu território histórico.

A Síria sempre foi um país pluriétnico. Lá sempre conviveram em paz diversas etnias e religiões, tais como os sunitas, os xiitas, os drusos, os alauitas, os cristãos, os syriannes e os yazidis entre outros. Ainda que a constituição mencione o Islã como religião oficial, apenas na Síria o Estado é completamente separado das religiões.

Fatores importantes da história síria no século XX

Há que se registrar dois grandes fatos históricos ocorridos no século XX com relação à Síria, após a sua independência em 1946. O primeiro deles, foi a fundação do Partido Baath, em 1947 e depois disso, a criação da República Árabe Unida – RAU, uma aliança política estabelecida com o Egito do presidente Gamal Abdel Nasser (1918-1970). É importante que comentemos ambos episódios.

O Partido Árabe Baath, posteriormente chamado Partido Socialista (ou Social) Árabe Sírio foi fundado em 7 de abril de 1947 por três cidadãos sírios, sendo o mais proeminente chamado Michel Aflaq, de origem cristã. Os outros dois chamava-se Salah Al Din Bittar e Zaki Al Arsuzi. Esse viria a ser o mais importante partido na política em praticamente todo o Oriente Médio árabe. Ele tem ramificações em todos os países árabes, pois ele se propõe a ser pan-árabe, ou seja, um partido que deveria governar todos os árabes, ainda que estes estejam espalhados em mais de 20 países diferentes.

A sua força maior sempre foi na própria Síria, onde governa até os dias atuais (desde a revolução de 8 de março de 1963) e no Iraque, que governou desde 1979 (e mesmo antes disso) até a morte de Saddam Hussein em 2003. O Partido tem como sua ideologia básica o chamado nacionalismo árabe, o socialismo árabe, o pan-arabismo e o anti-imperialismo. Esses são os quatro pilares de sustentação ideológica do Partido, que teve influência de muitos ex-membros do Partido Comunista Sírio, de orientação marxista-leninista.

O segundo aspecto mais importante da Síria moderna no século XX foi a unificação com o Egito, tornando-se como se fosse um país único, que passou a se chamar de RAU – República Árabe Unida. Esse era o postulado principal do Partido Baath, qual seja, um único povo teria que estar reunido em um único país. Esse episódio ocorreu e vigorou entre os anos de 1958 e 1961, por pouco tempo.

O presidente do Egito nessa época era o lendário Gamal Abdel Nasser, até hoje considerado o maior líder árabe da história. Nasser, se vivo fosse, tería completado cem anos em 18 de janeiro de 2018. Ao assumir a presidência do Egito em 1954, tinha apenas 54 anos. Ele fazia parte do grupo chamado Movimento dos Oficiais Livres, do Exército Egípcio, composto por jovens oficiais com visão mais avançada de mundo e contra a monarquia do corrupto rei Farouk I. Nasser era claramente anti-imperialista, em especial contra a Inglaterra, que havia colonizado o seu país. Nacionalizou o canal de Suez, a mais importante rota de escoamento do petróleo árabe para o Ocidente.

Nasser oscilou muito política e ideologicamente. Ora teve alianças com a esquerda e o Partido Comunista, ora os colocou na clandestinidade. Governou o Egito até a sua morte em 28 de setembro de 1970, quando seu funeral paralisou praticamente todo o mundo árabe. Sua formação militar sempre fez com que Nasser desprezasse os partidos, tendo convivido muitos anos em seus 16 de governo como presidente, em regime de partido único.

Na Síria, o sentimento pan-árabe era muito grande, ou seja, o povo sírio era o maior defensor de uma Nação árabe unificada. Isso, claro, é reflexo direto das imensas perdas territoriais que a Grande Síria sofreu (região do Levante, como vimos), quando dos desmembramento da região em quatro países. O líder do Baath e seu fundador na Síria, Michel Aflaq era grande defensor dessa unificação, ainda que tivesse restrições ao modelo de partido único de Nasser.

A partir de 1º de fevereiro de 1958, surge a RAU. As nacionalidades sírias e egípcias foram abolidas e todos os integrantes desses dois países seriam chamados simplesmente de “árabes”. Evidentemente, os motivos que levaram a aceitação da unificação pela liderança do Baath, relaciona-se com o fortalecimento do Partido Comunista Sírio, sob a liderança de seu secretário-geral Khaled Bakdash. Os comunistas eram muito fortes na Síria e poderiam chegar ao poder em breve. Isso fez com que Nasser e os socialistas do Baath, aceitasse a unificação.

Lamentavelmente, a união acabou durante pouco. Nasser dizia-se de “orientação socialista”, ainda que tenha perseguido os comunistas em vários momentos. Criou contradições com os socialistas do Baath sírio. Seu programa de estatizações também criou arestas com o empresariado dos dois países. Assim, durou apenas três anos a experiência de criação de uma Nação Pan-Árabe.

A revolução de 8 de março de 1963

Esse movimento é decorrente do fim da RAU, da aliança com os egípcios de Nasser. Na Síria, o protagonismo político do seu exército árabe sempre foi muito grande. Nesse sentido, o setor militar do Partido Baath, de orientação socialista, sabedor da força dos comunistas entre os militares, faz uma aliança com nasseristas sírios e perpetram um golpe de estado, de caráter militar e tomam o poder. Fala-se em quase mil mortos nesse movimento, que entregou o poder ao Baath, sob o comando de um dos seus fundadores, que foi Salah Al Din Al Bittar.

Três anos após o movimento de 1963, a Síria vive um novo golpe de estado, desta vez refletindo uma aguda luta interna no próprio Partido Baath. Os livros de história registram como sendo uma luta da ala jovem desse Partido contra os “aflaquistas”, seguidores do fundador Michel Aflaq. Isso vai gerar o que se chamou de “movimento corretivo na Síria”, ou ainda como em alguns livros de história “Revolução Corretiva na Síria”, de 13 de novembro de 1970, que vai levar ao poder o general Hafez Al Assad, que governará o país até a sua morte em 10 de junho de 2000, quando seu filho, o médico oftalmologista Dr. Bashar Al Assad assumiu a presidência da República. O general Assad teve formação soviética, onde passou muitos anos aprofundando sua formação militar.

Nesses três momentos, há história síria – 1963, 1966 e 1970 – é o coroamento de um luta interna não só dentro do Partido Socialista Árabe Sírio Baath, mas entre duas facções militares sob influência desse Partido. Acabou vencendo, por assim dizer, uma ala mais moderada. O jovem general Assad, ministro da Defesa, participante da Guerra dos Seis Dias de 1967, acabou vendo sua derrota quando da perda das colinas de Golã até hoje em mãos israelenses.

De qualquer forma, o chamado Conselho Nacional do Comando Revolucionário, envolvendo o próprio Partido Baath, mais o Movimento Nacional Árabe, a Frente Unida Árabe e o Movimento de Unidade Socialista, passam a dar o tom na política síria desde esse período e seus ideais progressistas e patrióticas se encontram presentes até os dias atuais. Não por acaso a Síria sempre foi a pedra no sapato do imperialismo estadunidense em seus planos para ocupar e controlar inteiramente o mundo árabe.

O pensamento central do Partido Baath sempre foi: unidade, liberdade e socialismo. Eles marcam o centro da política e de todos os governos que passaram na Síria desde 1963. Os postulados fundantes do Baath deixam claro: não foi o Islã que modelou os povos árabes, mas sim foi a Nação árabe que criou o Islã. Vejam por esse aspecto que até a religião do povo árabe, que tem influência em mais de 90% de sua população geral (estimada hoje em 400 milhões), criou uma religião e não ao contrário.

O início das agressões externas em 2011

O mundo árabe foi sacudido, a partir de dezembro de 2010 na cidade de Túnis, na Tunísia, por um grande movimento popular que surpreendeu a todos, em especial a esquerda. Milhões de pessoas foram às ruas para derrubar as tais “ditaduras” árabes (estranho que esse movimento ocorreu apenas nos países que adotam a República como sistema de governo; nenhuma monarquia reacionária e pró-EUA presenciou qualquer movimento contra elas). A imprensa, sempre desejosa de batizar, dar nomes a movimentos, prontamente a chamou de “Primavera Árabe” (sic), terminologia essa que os árabes jamais aceitaram (muitos chamam de inverno árabe).

Já a partir de janeiro de 2011, a famosa Praça Tahir no Cairo é tomada pela juventude que vai defender a derrubada do ditador Hosni Mubarak (aqui, registre-se que o Egito, desde 1954 com Nasser, passando por Anuar El Sadat e com Hosni Mubarak, em 57 anos teve apenas três presidentes). O governo Mubarak sempre foi – como seu antecessor Sadat o fora também – pró-EUA. Esse país era – e ainda é – um satélite dos Estados Unidos e para isso recebe todos os anos uma ajuda da ordem de dois bilhões de dólares (mais ou menos o que Israel recebe do tesouro dos Estados Unidos anualmente).

Alguns analistas chamaram esse movimento de Revolução Facebook, pois o recurso de chamar as pessoas a partir de eventos criados passou a dar enormes resultados práticos. Os eventos não tinham dono. E ganhavam milhões de aderentes. Por isso as praças estavam sempre lotadas. Dessa forma, o governo odioso de Mubarak não tinha como durar muito (esse ditador assumiu com a morte de Anuar El Sadat, executado por um comando guerrilheiro da Irmandade Muçulmana em 14 de outubro de 1981), pois havia governado o Egito contra seu povo por quase 30 anos seguidos. Acabou caindo em 11 de fevereiro desse ano.

Ocorre que o grande destino desse movimento – que a esquerda ainda estuda para procurar entender o que ocorreu mesmo e qual a profundidade do dedo do próprio imperialismo estadunidense nisso tudo, tal qual nas chamadas revoluções coloridas do leste asiático e mesmo as jornadas de junho de 2013 no Brasil – viria a ser mesmo a Síria, o país que mais enfrentamento faz aos Estados Unidos.

A partir de abril de 2011, a Síria passou a presenciar diversas manifestações em cidades grandes e médias, de pessoas que foram às ruas para protestar contra a “ditadura de Bashar” e pedir reformas e eleições livres. O presidente Bashar vinha sendo reeleito desde sua posse em 2000, com a morte de seu pai. A Síria tinha um governo patriótico e nacional, de frente ampla. Os dois partidos comunistas existentes no país tinham participação no governo com um ministério cada um deles. Existiam 11 partidos políticos funcionando livremente no país até então. A imprensa funcionava livremente, de forma regulada, como na maioria dos países capitalistas.

Bashar, percebendo a amplitude do movimento, foi sensível a isso e promoveu uma ampla reforma política, ampliando ainda mais a democracia dos sírios. Mais partidos foram legalizados – estima-se que hoje a Síria tenha 22 partidos funcionando. Mais órgãos de imprensa e comunicação foram criados. No entanto, parte dos manifestantes parecia estar interessado mesmo em derrubar um governo anti-imperialista e não estavam preocupados com democracia. Assim, de uma hora para outra, constatou-se a presença de pessoas portando armamentos nas manifestações que ocorriam.

Em uma situação dessas, não tem como um governo não reagir. Principalmente, se os armamentos que estavam sendo apreendidos pelo exército sírio eram armas pesadas, de uso exclusivo militar e mais do que isso: eram armas de uso dos Estados Unidos ou mesmo da Rússia. Falava-se á época que um fuzil AR-15 (americano) ou AK-47 (russo) custavam 200 dólares no mercado clandestino de armas e passaram a custar cerca de 1,5 mil dólares, em função da inflação dos preços motivado pelo derrame de bilhões de dólares da Arábia Saudita no financiamento de mercenários terroristas que começaram a atacar a Síria a partir das suas fronteiras.

Nestes mais de sete anos de agressões externas à Síria, foram detidos terroristas de 84 nacionalidades distintas, a maioria europeias. Na maioria, eram jovens fundamentalistas islâmicos sunitas, defensores de um estado Islâmico, atraídos pela organização terrorista que tem esse mesmo nome, mas que jamais foi nem estado, nem islâmico, pois o Islã jamais pregou a matança de cristãos e xiitas em seus preceitos. Ao contrário, o Islã prega a tolerância, em especial a proteção de cristãos e judeus.

A Síria hoje e suas perspectivas

Quase que se pode dizer, seguramente, que a Síria venceu a guerra. É bem verdade que pagou um elevado preço em vidas humanas (estima-se que meio milhão de pessoas tenham perdido a vida nos conflitos). Estima-se que dez milhões dos seus 22 milhões de habitantes, estejam deslocados de suas casas, na maioria porque as mesmas foram destruídas. Fala-se em pelo menos dois milhões que tiveram mesmo que sair do país, abrigando-se em algum país vizinho, vivendo como refugiados (Iraque e Líbano os aceitaram, menos as monarquias fascistas do Golfo).

Pode-se dizer que hoje não há mais praticamente nenhuma parte do território sírio que se encontra em mãos dos terroristas estrangeiros. Ainda que não goste desse termo, mas o que foi feito na Síria foi uma limpeza do país do que tinha de pior que havia um dia entrado nele, qual seja, terroristas que nada têm a ver com os árabes, financiados a peso de ouro pelas petromonarquias do Golfo. Os últimos a saírem foram os tais Capacetes Brancos (White Helmetes), que foram deportados para a Jordânia. Esses agentes do imperialismo pertencem a uma ONG dita humanitária, mas que na verdade ajudam a combater o exército sírio e fazem inclusive filmagens falsas para mostrar atrocidades que teríam sidas cometidas pelo exército.

Durante esses sete anos de conflitos a mídia internacional, à serviço de Israel e dos Estados Unidos, divulgou a falsidade de que na Síria ocorria uma “guerra civil” (sic), quando na verdade a Síria era atacada de fora para dentro por terroristas. Até os EUA de Trump praticamente reconheceram que perderam a guerra e vão retirar todo seu apoio, armamento e soldados em solo (no Vietnã demoraram 13 anos para reconhecer que perderam a guerra, depois de quase 60 mil dos seus soldados terem sido mortos e quase dois milhões de vietnamitas terem sido trucidados pelas armas estadunidenses).

Resta sabermos quem ganhou e quem perdeu nesse longo e sagrento conflito bélico. Do lado dos perdedores, as coisas são mais claras. Perderam a guerra os Estados Unidos, que sempre contaram com o apoio tático e de inteligência de Israel. Perderam ainda a Turquia, que agora manobra para mudar de posição e ver como se recompõe com os árabes e a própria Síria. Por fim, perderam todos os aliados europeus dos EUA e principalmente, as monarquias fascistas e reacionárias gos nove países “árabes” do Golfo, todos na verdade protetorados estadunidenses, tendo à frente a Arábia Saudita.

Mas quem venceu mesmo? Em primeiro lugar, claro, venceu o governo patriótico e nacionalista do presidente Bashar Al Assad, que, em 2014, havia sido reeleito em um pleito democrático com quatro candidatos e tendo obtido 88% dos votos. Bashar emerge hoje como um dos maiores estadistas mundiais no exercício do poder). Seu grande exército árabe sírio sai como grande vencedor. Esse exército que é considerado o melhor preparado e mais profissional em todo o mundo árabe.

Venceu o chamado Arco da Resistência, composto por, além da Síria, pelo Iraque e Líbano, que são países árabes e pelo Irã (país persa), que emerge como grande líder do Oriente Médio. Venceu também o Hezbolláh, Partido que participa do governo libanês, mas que tem também um grande exército de guerrilheiros altamente treinados e com elevada consciência anti-imperialista que lutaram na Síria (jamais saberemos quantos foram oficialmente, mas minha estimativa é que situam-se entre 10 e 20 mil soldados).

Por fim, temos a vitória da Rússia que, desde o início do conflito, sempre esteve ao lado do povo e do governo sírio. Seguramente, a Rússia ampliará a sua influência geopolítica não só na Síria, mas em outros países da região. Ela consolidará a sua base militar na cidade portuária de Tartus, no Mediterrâneo e na cidade de Hmeimim, na região Noroeste do país.

Também a China, que ficou um pouco mais distante do processo militar, mas deu total apoio ao governo Bashar, votando com a Rússia no Conselho de Segurança na ONU pela derrubada de resoluções contra a Síria sempre propostas pelos Estados Unidos. Esse país, que tem as maiores empreiteiras do mundo e que já atuam em muitos países, em especial na Nicarágua, onde constroem um canal muito maior que o do Panamá, tem total interesse na Reconstrução da Síria que se iniciará em breve.

Infelizmente, a mídia ocidental impede que ouvintes e leitores de seus jornais tenham a visão que aqui apresentamos. Eles mais confundem do que informam. Fazem propaganda na verdade. Recusam-se até hoje – nem todos, claro – de chamar o presidente eleito democraticamente de “presidente”. Referem-se ao presidente Bashar como “ditador” (sic) e ao seu governo como “regime sírio” (sic). Mas, a verdade está vindo à tona.

Daquela região, como já dissemos muitas vezes, está-se construindo uma nova ordem mundial. Um novo mundo multipolar está surgindo. E, em breve, vamos presenciar a sua edificação. E os que não entenderem isso, ficarão à margem da história.

*Sociólogo, escritor, pesquisador, professor e analista internacional. É colaborador da revista Sociologia da Editora Escala, e dos sites Duplo Expresso, Vermelho, Resistência e Fundação Grabois. Foi professor da UNIMEP por 20 anos. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP e a Federação Nacional dos Sociólogos. Tem nove livros editados, dos quais cinco sobre o Mundo Árabe.

Sionismo, projeto neocolonial do imperialismo

Lejeune Mirhan*

O tema sionismo é dos mais controversos quando se aborda temas de geopolítica internacional. É comum os próprios sionistas e judeus de direita prontamente nos acusarem de sermos “antissemita” (sic). Ainda mais quando relacionamos essa temática ao sistema neocolonial. Com este artigo pretendo abordar essa questão, falando sobre as origens do sionismo no século XIX proposta pelo controverso jornalista austríaco Theodor Herzl (1860-1904). Falarei de forma resumida da história da Palestina, tratado de dois fatos específicos e muito importantes, ocorridos no século XX, que foram os acordos de Sykes-Picot e a Declaração Balfour. Pretendo tratar de pelo menos quatros dos principais mitos judaicos/sionistas que eles propalam aos quatro cantos. Por fim, tipificar os pelo menos quatro tipos de sionismo identificados e mais preponderantes. E sigo a postura do grande jornalista inglês Robert Fisk, talvez o maior conhecedor do mundo árabe quando ele disse certa vez em um dos seus magníficos artigos: “sem medo de ser antissemita”.

Breve história da Palestina

A Palestina é terra milenar. Vem de tempos imemoriais. Se formos pegar estritamente a lenda bíblica, ela pode se situar há pelo menos três mil anos antes de Cristo. A cidade palestina de Jericó é considerada a cidade mais antiga do mundo com vida continuada (eu a visitei em duas das minhas três idas à Palestina). Fala-se que ela tería algo próximo a dez mil anos. Na época do Império romano – um dos pelo menos nove impérios que ocuparam aquela região desde então – ela era chamada de Síria-Palestina.

Nessa região moraram povos – muitos extintos – entre eles os amorreus, mohabitas, cananeus, filisteus e tantos outros. Os palestinos descendem desses povos todos e moram ali há pelo menos cinco mil anos. Jamais me esqueço de quando visitei a aldeia de Nabih Saléh, e me encontrei com a família Tamimi, pais e avós de Ahed Tamimi, adolescente palestina presa por enfrentar o exército israelense (eu a conheci com cerca de 10 anos) e perguntei ao chefe da aldeia: – há quanto tempo vocês moram aqui na aldeia? Ao que ele me respondeu: – há mais ou menos cinco mil anos!

Sobre esses impérios (ou povos), podemos listar pelos menos os seguintes, que ocuparam a Palestina: egípcios, hebreus, assírios, babilônios, persas, grego/macedônicos, árabes, turcos e ingleses. Estes últimos entraram na Palestina sob o comando do general Edmund Allenby ainda em 1917, antes do final da 1ª Guerra Mundial.

Com a iminência da derrota na guerra da Tríplice Aliança, formada por Alemanha e os impérios Austro-Húngaro e Otomano, a chamada Tríplice Entente, formada pela França, Inglaterra e império Russo iniciam as conversações desde o final de 1915, para repartir entre si os espólios de guerra, os territórios do Oriente Médio.

Foi nesse momento que os dois chanceleres dos principais países – Inglaterra e França – começam as conversas. Mark Sykes e François Georges Picot, que posteriormente viria a ficar conhecido como acordos de Sykes-Picot, assinaram formalmente e secretamente os acordos em 16 de maio de 2016. Acabou sendo o líder da revolução bolchevique da Rússia em outubro de 1917, Vladimir Lênin, quem divulgou uma cópia desses acordos para o mundo. A Inglaterra ficaria com a Palestina, Jordânia (antes chamava-se Transjordânia) e Iraque e a França com a Síria e o Líbano. Na verdade, aqui ocorre uma traição da Inglaterra ao que ela havia prometido aos árabes – qual seja, a sua independência – em acordos negociados pelo seu enviado especial Thomas Edward Lawrence, imortalizado no cinema no filme Lawrence da Arábia (de David Lean, com Peter O’Toole). Ele viria a escrever o belo livro Os sete pilares da sabedoria, ou Seven pillars of winsdow). Os ditos deste acordo foram posteriormente ratificados pelo tratado de San Remo de 26 de abril de 1920 e referendados pela Sociedade das Nações, antecessora da ONU, em 24 de julho de 1922.

A segunda questão importante na história da palestina é a famigerada carta escrita pelo secretário de assuntos estrangeiros da Inglaterra, lorde Arthur James Balfour endereçada ao também lorde e barão Lionel Walter Rothschild, maior capitalista financeiro da Inglaterra e de toda a Europa. Nessa carta, em nome de sua majestade a Rainha, ele promete o que não lhe pertencia a um povo que não tinha direito a ela: a criação de um lar nacional judaico nas terras da Palestina. Mas, prometeu mais que isso. Disse que a Inglaterra auxiliaria na imigração de judeus europeus para a Palestina, atendendo ao programa sionista, como veremos a seguir.

Origens do sionismo

Segundo Shlomo Sand, um dos maiores historiadores não sionistas hoje em Israel, o conceito de “pátria” e “nação” ou mesmo de “patriotismo” são estranhos ao judaísmo. O principal livro sagrado dos judeus, o Talmude (e não o Torá ou pentateuco, como a maioria das pessoas pensam que é) não menciona nada parecido com isso. Aliás, nem o conceito de “Terra de Israel” é mencionado (ele trata desses temas polêmicos em seus dois livros editados no Brasil, sucessos até mesmo em Israel, que são A invenção do povo judeu e A invenção da terra de Israel ambos publicados pela Benvirá/Saraiva; aguardamos ansiosos a tradução do último da trilogia que será intitulado A invenção do judeu secular).

O termo Sion significa “elevado” em hebraico e trata de montanhas que cercam Jerusalém, que eles chamam de terra de Sion. Na antiguidade bíblica quando os hebreus rezavam e sonhavam com a sua “terra prometida por deus” (sic), eles oravam e diziam sempre assim: “no ano que vem em Jerusalém”. Dizem as profecias bíblicas de que a segunda vinda do Messias (a primeira para os judeus) só iria ocorrer quando estes vivessem em Jerusalém e em Israel. É exatamente a partir dessa tese bíblica que surge o chamado sionismo cristão, como veremos mais adiante.

Grosso modo podemos definir sionismo como um movimento nacional judaico que defende a autodeterminação do povo judeu na sua busca pela edificação de sua Nação e Estado judeu. E essa nação tería que ser construída exatamente onde vivem e moram há milhares de anos o povo palestino. Com base na lenda bíblica de que deus tería prometido uma terra para a descendência de Izaac, segundo filho de Abraão.

Aqui temos que registrar que os primeiros sionistas – com Theodor Herzl à frente – jamais foram religiosos. Eram seculares. Alguns eram até ateus. Mas, para dar forças às suas teses coloniais, tinham que lançar mão da crença religiosa da maioria dos aderentes ao judaísmo em todo o mundo, qual seja, de que, de fato, aquelas terras pertencem ao povo judeu por eles ser escolhido de deus e por que foi deus quem as deu a eles. É como se tivéssemos um deus como corretor de imóveis e de terras.

No final do século XIX, os historiadores mencionam o fato de que as teses sionistas não ganharam corpo entre os judeus no mundo pelo fato de que a grande maioria deles era “assimilacionista”, ou seja, defendiam a ideia de que deveriam ser mesmo assimilados nos países e nas culturas dos povos em que viviam, falar sua língua. Defendiam simplesmente o direito de poder praticar a sua religião com liberdade.

Aqui, o episódio de repercussão internacional ocorrido na França com em 1894 com a condenação do capitão Alfred Dreyfus, judeu e oficial do exército francês caiu como uma luva para fortalecer as teses sionistas, de que os judeus deveriam ter sim o seu lar nacional em um país só deles. Herzl argumentou a partir disso que mesmo os judeus tendo sido assimilados em todos os países eles sempre seriam discriminados (as razões disso são tema para outro trabalho).

Herzl não foi o primeiro a empregar o termo sionismo. Quem o fez foi o judeu chamado Natham Birnbaum, um escritor e jornalista, no ano de 1892. Ele publicou um artigo na revista que ele próprio havia fundado, chamada “Autodeterminação”.

No entanto, Theodor Herzl é considerado o “pai do sionismo”. Herzl organizou o 1º Congresso Sionista Mundial, que ocorreu em 29 de agosto de 1897, na cidade suíça de Basileia. A prova que a maioria dos judeus rejeitava o sionismo é que Herzl tentou realizar esse congresso na Alemanha e outras localidades, mas era rejeitado pelos rabinos mais influentes da época. A principal obra de Herzl foi O Estado judeu, onde ele descreve como sería esse estado, tentando descrever como seriam as leis, a organização, os costumes, fala sobre a imigração de judeus de todo o mundo para Israel (eles usavam o termo Palestina), falava até dos prédios edificações.

Esse Congresso contou com a presença de 200 delegados de várias organizações judaicas no mundo e aprovou o seu “Programa Sionista” e fundou a Organização Sionista Mundial que iria organizar todos os congressos decorrentes e escolheu Herzl como seu primeiro presidente. O principal dessa plataforma sería a edificação desse estado judeu na Palestina, ainda que diversas outras propostas tenham sido apresentadas, mas perderam nas votações (falou-se em Congo, Uganda, Patagônia, Amazônia etc.).

Interessante registrar como, de certa forma Herzl foi profético quanto à data da instalação do seus estado judeu na Palestina. Em seu diário, após o Congresso, ele escreveu: “se eu pudesse resumir o Congresso da Basileia eu diria: ‘eu fundei o estado judeu!’... se eu dissesse isso hoje sería objeto de risos... mas, em cinco anos, talvez 50 anos, todos verão”. A ONU votou a partilha da Palestina em 29 de novembro de 1947, exatamente 50 anos após o Congresso da Basileia. Na verdade, isso não foi profecia alguma. A Inglaterra contribuiu decisivamente para que isso ocorresse e anunciou a saída da Palestina nesse ano, sendo concretizada no dia 14 de maio de 1948, fato esse que no dia seguinte, 15 de maio, os judeus, sob a liderança de David Ben Gurion, proclamavam a instalação do Estado judeu (esse dia, para os palestinos e árabes em geral é chamado de Al Nakba, “a catástrofe”).

Os quatro principais tipos de sionismo

Aqui mencionarei, de forma resumida, as quatro principais correntes de sionismo existentes à época de Herzl ou criadas depois dele. A maior e mais importante, claro, é a dele próprio, a que chamamos de “sionismo político”. Ela tem aspectos essencialmente diplomáticos para a sua efetivação, ou seja, parte-se do princípio de que a construção dessa organização estatal deveria dar-se a partir de conversações e articulações com as potências hegemônicas da época – especialmente Inglaterra e França – do que pela força da luta popular e mesmo militar.

A segunda corrente mais importante, que viria a ser inclusive majoritária a partir do 18º Congresso Sionista Mundial ocorrido em 1933 na cidade de Praga, atual República Tcheca, é chamada pelos historiadores de “sionismo socialista”. Na verdade, essa corrente vai fundar o Labor ou Partido Trabalhista de Israel, nos moldes do Inglês, de feições nitidamente socialdemocrata. Nada tinham de socialistas. Seu líder maior foi David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel. Esse Congresso ocorre sob o impacto da vitória do Partido Nacional Socialista de Hitler na Alemanha (pela divisão ocorrida entre comunistas e sociais democratas). Esses sionistas fundaram as primeiras fazendas coletivas, chamadas Kibutz, na Palestina. Além de Gurion, figuras expressivas na política israelenses como Shimon Peres e Yitzhak Rabin pertenciam a essa corrente (ambos foram primeiro ministros de Israel, sendo Rabin assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995, por ele ter assinado os acordos de Oslo com a OLP de Yasser Arafat em 1993).

A terceira corrente – também muito influente – é chamada pelos historiadores de “sionismo revisionista”. Ela teve como seu maior teórico Vladimir Jabotinsky, talvez o sionista mais violenta e radical antipalestino que já se conheceu. Ele defendia a volta aos princípios do sionismo de Herzl, mas como tática, discordava dos “políticos” e da sua via diplomática. Ele defendia a militarização do movimento sionista, ou seja, pregava a criação de milícias terroristas que atacassem indistintamente alvos ingleses e aldeias palestinas. As principais organizações paramilitares terroristas sionistas conhecidas são: Irgun, Haganah e Stern. A ação mais conhecida desses terroristas foi o massacre de aldeia de Deir Yassim entre 9 e 11 de abril de 1948, ainda sob o mandato da ocupação britânica da Palestina, onde morreram brutalmente 120 palestinos, crianças, velhos e mulheres em sua maioria. Tal massacre foi assumido pelas organizações terroristas Stern e Irgun.

Por fim, temos o “sionismo cristão”. Este talvez dos mais radicais de todos eles. Esse é um termo provavelmente criado pelo linguista estadunidense, Noam Chomsky, hoje um dos maiores analistas de política internacional. Se para os cristãos a profecia bíblica da volta de Jesus está associada diretamente a que os judeus voltem para Jerusalém e para a Palestina, então é preciso incentivar ao máximo que a imigração ocorra em todo o mundo e que eles devem ajudar a fortalecer o Estado de Israel.

Para esses cristãos fundamentalistas, a serviço do sionismo e do racismo de Israel contra os palestinos, o marco principal dessa profecia foi a instalação de Israel em 15 de maio de 1948. É como se a profecia estivesse sendo realizada a partir daquele momento. O maior expoente dessa corrente foi exatamente Lorde James Balfour, cristão anglicano, autor da famigerada carta de 1917 que prometia que a Inglaterra tudo faria para garantir uma terra aos judeus na Palestina e ajudaria na imigração para lá.

Nos EUA o pastor tele evangelista mais famoso, e cristão sionista fervoroso é Pat Robertson. Ainda nesse país, ninguém mesmo que seu próprio presidente Donald Trump é adepto dessa corrente do sionismo cristão, fazendo o jogo dos sionistas que, em seu país, são extremamente fortes e atuam através do lobby chamado AIPAC (American Israel Public Affair Commitee, ou Escritório de Negócios Públicos Israel-Estados Unidos). Apenas para registro, no Brasil dois deputados federais fascistas defendem abertamente essas teses. São ele Jair Messias Bolsonaro e Marcos Feliciano, este último pastor evangélico. Não podemos nos esquecer que os cristãos puritanos, os que imigraram da Inglaterra em busca de um “novo mundo” nas Américas, passaram a ler a bíblia e a considerá-la um livro histórico muito antes que os sionistas.

As três principais mentiras dos sionistas

Já se disse que uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade. Era essa a forma de fazer propaganda do nazismo adotada pelo ministro Goebels sob o governo nazista de Hitler. Assim, já desde o início de sua propaganda sionista no final do século XIX, foi preciso falar muitas mentiras de forma insistente de tal maneira que as pessoas passassem a acreditar que elas seriam verdades. Quero comentar aqui três dessas principais mentiras (existem autores que enumeram dez grandes mentiras).

1ª) Uma terra sem povo a um povo sem terra – Talvez a mais importante de todas, pois se apoia em literatura exclusivamente religiosa, mítica, fantasiosa, lendária, sem prova factual alguma. Trata daquela que diz que o povo judeu sería o povo “escolhido” por deus (sic) e que este lhe prometera uma terra exclusivamente para eles. Aqui reporta-se ao velo testamento, ao chamado pentateuco (cinco principais livros do chamado velho testamento, que para os judeus chama-se Torá). Está no Gênesis, primeiro livro da bíblia. Lá conta-se a história de um patriarca chamado Abraão, casado com Sara que não tinha filhos. Em certo momento – ele que falava com deus de forma amiúde ou com seu intermediário chamado Gabriel, na forma de anjo – deus, com pena de Abrão que não tinha filhos pois sua esposa era infértil, manda Abrão fazer um rebento com sua escrava egípcia chamada Agar. Com ela ele tem Ismael, seu primogênito e considerado patriarca de todos os árabes. Tempos depois deus muda de ideia e fala que ele agora poderá ter filhos com sua legítima esposa Sara (que se chamava antes de Sarauí e já tinha mais de 90 anos!). E com ela surge seu segundo filho chamado Izaac. Deus – sabe-se lá seus motivos – promete a Abrão que lhe daría uma grande terra para toda a descendência de seu segundo filho. Nada contra que deuses lendários prometam terras para os povos que nele creem, mas não se pode dar uma terra a alguém que não lhes pertence e que tinha um ou muitos povos nela morando. Mas, deus fez mais que isso: mandou que todos os que morassem nessa terra, chamada de Canaã, fossem eliminados. E a partir daí, a bíblia está eivada de relatos de carnificinas contra os povos locais perpetradas pelos conquistadores, em especial contra os palestinos. Aqui fica uma pergunta: porque deus destituiu Ismael dessa terra? Será porque ele não sería filho legítimo de Abrão? Sería discriminação?

2ª) Israel é um estado democrático – Essa mentira é a mais propalada pelos sionistas desde a instalação de seu estado em 15 de maio de 1948. Israel está cercada de 22 países árabes onde, na sua imensa maioria, a democracia, de fato, é ainda embrionária ou mesmo inexistente. No caso dos nove países de monarquias absolutistas do golfo Pérsico aí então inexiste democracia. Na Arábia Saudita não há sequer constituição, pois como estado teocrático eles dizem que não precisam disso pois têm o Alcorão. Não existem sequer partidos. No Egito e no Iraque ocorrem eleições e os partidos funcionam, mas nada que se compare com as amplas liberdades que estamos acostumados no Ocidente (ainda que por nossas bandas brasileiras a democracia hoje esteja comprometida). Talvez apenas na Síria e na Tunísia possamos dizer que temos democracias um pouco mais avançadas. Assim, a dita democracia de Israel, quando comparada com a de seus vizinhos, em um primeiro olhar, pode parecer, de fato, bastante avançada. Engano. Mentira. Israel jamais foi uma democracia. E marchará para piorar as coisas ainda mais se e quando for aprovado projeto de lei em tramitação no Knesset (seu parlamento) que assegura o caráter judeu ao Estado. Os palestinos que lá residem (em torno de dois milhões), são cidadãos de segunda categoria. Não só porque recebem menos da metade pelo trabalho que realizam (quando empregados) do que os trabalhadores judeus, mas porque são praticamente de uma religião não oficial do Estado. Fala-se que Israel não é estado teocrático. De meu ponto de vista é sim, exatamente porque discrimina praticante de outras religiões que não seja a judaica. É um dos poucos países no mundo que a carteira de identidade de seus cidadãos tem uma campo que pergunta a qual religião a pessoa pertence. Imagine se com um nome já claramente identificado com árabe e na carteira de identidade estiver escrito que ele é muçulmano. Será cidadão fadado a ser uma pessoa de segunda classe.

3ª) O holocausto matou seis milhões de judeus – Aqui é preciso deixar claro desde logo: jamais negaremos o que Hitler fez contra judeus em 12 anos de poder (1933-1945). Isso não se pode negar, ainda que exista uma corrente de historiadores – chamados de “negacionistas” – que possuem outra interpretação desse episódio. O que apenas se quer dizer é que não foram apenas judeus que foram perseguidos e mortos. Foram também cristãos, protestantes, comunistas, socialistas, ciganos e outras etnias. Mas, a questão colocada por muitos é: que culpa têm os palestinos sobre esse massacre, de forma a que deveriam perder suas terras para receber esse povo perseguido? Porque a solução não devesse ser encontrada pela própria Europa que viveu esse triste episódio? Será quem um dia teremos a verdade completa sobre todas essas mentiras? A história mostrará.

O sionismo hoje

Gostaría de iniciar esta parte final deste texto sobre sionismo relembrando um período da ONU em que o sionismo foi condenado como sendo racismo. A resolução nº 3.379 foi votada em 10 de novembro de 1975 e aprovada por 72 votos a favor e 35 contrários. Dizia que sionismo é uma forma de racismo e deveria ser condenada. Essa era uma época ainda da chamada guerra fria e de um mundo dividido em dois grandes campos. Chamávamos esse mundo de bipolar. Após a vitória dos EUA na primeira guerra (agressão na verdade) contra o Iraque em janeiro de 1991, o mundo viveria uma profunda mudança. Com o fim da URSS no final desse ano, passaríamos a viver a unipolaridade, ou seja, o mundo passaria a ter um xerife, um dono, um chefe, que seriam os Estados Unidos. Pois nesse sentido, nesse fatídico ano de 1991, no dia 16 de dezembro, a mesma ONU vota uma nova resolução, de número 4.686, que revogava a anterior, de forma que sionismo havia deixado de ser racismo por 111 votos a apenas 25. A resolução de condenação do sionismo havia resistido por apenas 26 anos.

O sionismo político controla hoje o aparelho de Estado de Israel e tem maioria esmagadora no seu parlamento. O governo fascista de Benjamin Netanyahú com seus aliados judeus ortodoxos professa a ideologia sionista com uma fé cega. Jamais aceitará minimamente as reivindicações dos palestinos para o estabelecimento de seu estado nacional. E são três as questões básicas postas à mesa de negociações: 1. Direito de retorno aos que quiserem voltar (a imensa maioria que imigrou para dezenas e países no mundo desde 1948 ou já faleceram ou já constituíram grande descendência, realizaram-se na vida com acúmulos de propriedades e riquezas em muitos casos e dificilmente abandonariam tudo para voltar à Palestina); 2. Definição de fronteira da Palestina em pelo menos a que existia antes da guerra de 1967 e 3. Estabelecimento de Jerusalém (pelo menos a parte Oriental) como capital do futuro Estado Palestino. Não só os sionistas negam tudo isso, como tomam – dia-a-dia – medidas que vão dificultando cada vez mais a obtenção da paz.

Os sionistas controlam hoje em todo o mundo a maioria dos bancos centrais que emitem as moedas mais fortes que circulam no mundo, em especial o dólar como o Federal Reserve Bank (banco da Reserva Federal, o BC estadunidense). Praticamente todos os seus presidentes foram judeus sionistas. A família Rothschild, de judeus ingleses, controla os BCs da própria Inglaterra e da França. O maior descaramento sobre isso é o que ocorre no Brasil dos golpistas do PMDB e do PSDB (o Partido que mais apoia o sionismo no país). O presidente do BC do Brasil, Illan Goldfajn é israelense nascido em Haifa (a primeira cidade exclusivamente judaica fundada por sionistas no começo do século XX), nem brasileiro é.

Desde 1948 quando o Estado de Israel foi proclamado em 15 de maio, os Estados Unidos tudo fazem para proteger Israel. Gastaram trilhões de dólares para isso em várias guerras que fizeram e apoiaram direta ou indiretamente. É uma situação que irrita boa parte dos cidadãos estadunidenses, ainda que não sua maioria. É como se Israel fosse a prioridade número um dos Estados Unidos, como se Israel estivesse mesmo acima dos próprios interesses norte-americanos. Uma situação esdrúxula, mas que jamais foi modificada por qualquer que tenha sido o presidente desse país nestes últimos 70 anos. E talvez não venha a ser modificada tão cedo.

Por fim, a questão do entretenimento e da indústria do cinematográfica. Não vamos entrar em detalhes, mas todas as grandes empresas de mídia e de cinema de Hollywood nos Estados Unidos estão sob o controle de sionistas. E ninguém esconde isso. Os maiores estúdios de Hollywood que produzem os filmes que mais vendem e de maiores sucessos de bilheteria estão em mãos de notórios sionistas, alguns até nascidos em Israel.

Os tempos que vivemos hoje é de transição de um sistema mundial de unipolaridade para um mundo multipolar. Isso gera muito tensionamento, conflitos e mesmo guerras regionais, como hoje ocorre – por procuração – na Síria. Quem sofre com isso são os povos mais pobres e oprimidos do mundo. E nesse contexto, os palestinos são hoje o povo que vive a mais longa dominação e ocupação por outro povo da história moderna.

Essa situação só irá se alterar quando conseguirmos modificar a correlação adversa de forças e caminharmos para uma ampla unidade dos povos e forças políticas que defendem um outro mundo, socialista, como possível.

*Sociólogo, professor (aposentado), escritor e analista internacional. Foi presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP e da Federação Nacional dos Sociólogos. Ministrou aulas na Unimep por 20 anos. É autor de nove livros nas áreas de Sociologia e Política Internacional, dos quais seis sobre mundo árabe, onde esteve várias vezes. É colaborador da revista Sociologia da Editora Escala, do portal Vermelho e dos sites Duplo Expresso (onde é comentarista internacional às quintas-feiras 6h30) e Resistência.