Presidente do Sinsesp concede Entrevista para a Revista do Sintetel/SP

Prof.Lejeune Mirhan - 20-10-2021 69 Visualizações

Lejeune Mirhan, sociólogo, professor de Sociologia, escritor e arabista. Atualmente é presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, colaborador da revista Sociologia da Editora Escala e colunista semanal do portal Vermelho (www.vermelho.org.br). Entrevista concedida para a Revista Linha Direta do Sindicato dos Telefônicos do Estado de São Paulo, ao jornalista Emílio Franco júnior.

A mulher, de maneira geral, já quebrou o preconceito em relação à presença dela no meio político?

Em primeiro lugar quero parabenizar o Sindicato dos Telefônicos do Estado de SP em publicar uma revista integralmente dedicada à mulher, que vai ocupando a cada dia um lugar mais destacado no mercado de trabalho, no sindicalismo e na vida política nacional.

Não uso o termo “preconceito” com relação à presença das mulheres na vida política. Ocorre que a mulher tem praticamente uma tripla jornada de trabalho, pois na medida em que ela foi ingressando no mercado de trabalho para ampliar a renda familiar (quando só a do homem não dá mais conta), ela não deixou as tarefas de mãe, esposa e dona de casa. Ainda são poucos os homens que repartem com as mulheres as tarefas domésticas. É importante registrar que estudiosos do assunto indicam que não foi só para ampliar a renda que as mulheres foram a mercado de trabalho, mas também pela diminuição da taxa de fecundidade, maior escolaridade que os homens e o impulso do movimento feminista.

Assim, o que ocorre não é propriamente um “preconceito” contra a presença das mulheres nas câmaras de vereadores, nas prefeituras, nos parlamentos e governos, mas simplesmente é ainda uma pequena parcela das mulheres conscientes que conseguiram romper com a opressão de gênero que sofrem diuturnamente há séculos, de tal forma que conseguiram ter uma atuação nessa esfera da vida do país.

Há que se registrar ainda o machismo ainda forte por parte dos homens que, muitas vezes, impedem que suas mulheres tenham atividades políticas sindicais e parlamentares e muito menos nas prefeituras.

Mas, elas estão ocupando de forma acelerada os seus espaços sociais.

Em que ponto, no âmbito político, a mulher costuma se diferenciar do homem?

As mulheres têm o que os homens não têm: uma elevada sensibilidade. Em todos os aspectos. Em especial, o que é mais importante, a sensibilidade social. As mulheres fazem gestões voltadas para auxiliar os mais desfavorecidos na sociedade. Existem muitas experiências extremamente positivas de gestões com mulheres à frente do executivo municipal. De cabeça posso citar duas muito positivas: Marta Suplicy e Luiza Erundina em São Paulo e Luciana Santos em Olinda. A marca dessas gestões foi olhar os que mais precisam.

De qualquer forma, deve ser difícil uma administração feminina, por assim dizer, cercada de muitos secretários homens, muitas vezes machistas, autoritários, prepotentes e arrogantes, como os homens têm sido no trato com as mulheres.

O eleitorado feminino tende a se identificar com candidatas mulheres?

Não tenho estudos que possam afirmar o que vou dizer. Mas, o eleitor vota de acordo com programas, com emoção, com identificação de histórias de vida. E ai, pode ser homem ou mulher, branco ou negro, hetero ou homossexual. Ele vota com sua consciência. Se o candidato possui uma proposta ou um programa de trabalho com que o eleitor se identifica, o voto esta assegurado.

As pesquisas de intenção de voto, que já mostram Dilma (candidata do PT) na frente de José Serra (candidato do PSDB), ainda indicam que ela não tem a maioria dos votos femininos. Mas, circunstancialmente, o motivo por que hoje, neste momento, parte do eleitorado feminino se identifica com Serra, que é homem, não posso concluir com o que alguns sociólogos de plantão vêm afirmando que “mulher não vota em mulher”. Nada a ver.

Existem diferenças sensíveis entre administrações masculinas e femininas?

Como já disse anteriormente, uma administração feminina é muito mais sensível aos problemas sociais. As populações respeitam e gostam mais de prefeitas do que ao contrário. De minha parte, espero que cada dia mais possamos ver mulheres em postos de mando em todos os níveis da sociedade.

Eleger uma mulher presidente da República muda algo em termos práticos?

O contexto atual, de meu ponto de vista, Dilma vai vencer não por ser mulher. Mas, porque ela representa um sentimento de continuidade de uma era que chamamos de “Lula”, que vem dando certo. Que criou quase 15 milhões de empregos em 15 anos. Que pagou a dívida externa e nos libertou do FMI. Que valorizou o trabalho e controlou mais o capital. Que deu visibilidade mundial ao Brasil, que nos deu auto-sustentação com relação ao petróleo e levou a Petrobras de 13ª petrolífera do planeta para a 4ª hoje. Que descobriu o pré-sal, que vai voltar a Telebrás que vai levar banda larga para todas as residências até 2014. Que trouxe a Copa e as Olimpíadas para o Rio de Janeiro. Que elevou a autoestima dos brasileiros. E, fundamental, para nós sindicalistas, que legalizou as nossas centrais sindicais e que deixou de criminalizar os movimentos sociais. Por isso penso que Dilma vai ganhar e já no 1º turno. O Serra representa a “mudança” e por isso vai perder. Não tem propostas, nem programa. O povo quer continuidade. Quer melhorar ainda mais claro, mas prefere que alguém de confiança do presidente Lula faça isso. Por isso Dilma.

No entanto, a escolha de Lula é ainda mais feliz pelo fato que ela será a primeira mulher a governar o país. Emblemático: o primeiro operário a presidir o Brasil vai eleger a primeira mulher presidente da nossa história.

O que representa, do ponto de vista sociológico, a eleição de uma mulher para presidente do Brasil?

Representa um avança fenomenal. Um passo imenso na luta das mulheres por igualdade de direitos e pela sua emancipação social. Acho que com Dilma presidente as mulheres terão ainda muito mais espaço na vida política nacional do que já tiveram com os oito anos de Lula. Com Dilma o direito de decidir sobre ter ou não ter filhos não planejados vai ter uma mudança profunda. O aborto precisa com urgência ser tratado como uma questão de saúde pública e sonhamos que isso vá ocorrer com uma mulher na presidência. Os negros, os idosos ou que possuem distintas orientações sexuais, tenho certeza, terão muito mais assegurados seus direitos na sociedade, marcada por imensas discriminações.

É como se com a eleição de Dilma estivéssemos assegurando nosso passaporte para um país verdadeiramente de primeiro mundo. Chamam-nos em todo o mundo de “país emergente”. Nunca nos dizem “país desenvolvido”. Chegaremos em 2014 à quinta economia do mundo. E vamos chegar lá como país desenvolvido e presidido por uma mulher.

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