A China no centro da geopolítica mundial

Prof.Lejeune Mirhan - 16-02-2021 358 Visualizações

A partir do lançamento de meu programa semanal de análise geopolítica mundial, no Canal Iaras & Pagus, todas as quintas, às 11h, que chamamos de “Geopolítica na veia” (1), decidi transcrever o mesmo, onde analiso os principais fatos dos últimos dias e – com pequena revisão – publicar na forma de artigo semanal de balanço de conjuntura internacional. Quem quiser assistir o programa na íntegra, de mais ou menos uma hora, pode clicar neste link: https://bit.ly/3pjHLVS. Agradeço a Ademir Munhóz a transcrição (2).

  1. A questão da República Popular da China.

A China vem crescendo rapidamente e já desponta como candidata a ser a primeira potência mundial em todos os aspectos, deixando os EUA para trás. Ela vive uma situação bastante delicada com relação à política externa dos Estados Unidos. Lembremos que desde janeiro de 2009, quando Obama tomou posse e, portanto, estamos falando de 12 anos passados, oito de governo Obama e quatro de Trump, esse país vem sendo emparedado, sancionado e tudo se faz pela sua contenção. Isso acontece porque há um comércio acirrado no mercado internacional e, os Estados Unidos estão perdendo feio essa guerra.

Os EUA dizem que a China usa métodos, estilos não tradicionais e não referendados pela OMC. Não é verdade. A China entrou na OMC em 2001 – portanto há 20 anos – e respeita todas as regras e normas do comércio internacional.

O comércio bilateral entre Estados Unidos e China é extremamente deficitário para os EUA, que importam da China todos os anos, meio trilhão de dólares e exportam apenas 100 bilhões. Portanto, há um déficit anual que vem se acumulando há muitos anos é de 400 bilhões. Em 10 anos isso dá quatro trilhões. É mais que dois PIBs do Brasil. Ali há uma pressão interna nos Estados Unidos para que isso se reverta. É a palavra que mais se fala nos Estados Unidos é: desacoplamento.

O que significa desacoplar? Que nem uma cápsula espacial, acoplou, desacoplou. É preciso desacoplar a economia estadunidense da chinesa. Significa separar uma da outra. Mas, isso não é possível e não só porque é a China que fornece um infindável número de itens necessários à fabricação de fármacos e medicamentos, a indústria química, e mesmo ela exporta produtos de alto valor agregado em tecnologia, que os Estados Unidos já não fabricam mais.

Aquela imagem que tínhamos de uma China de 40 anos passados que copiava não existe mais e ficou para trás. As pessoas falavam depreciativamente “modelo ‘xing-ling’” que significava segunda linha. Isso acabou. A China hoje é um país de ponta na tecnologia e é preciso reconhecer que não só não dá para desacoplar como boa parte de empresas muito importantes estadunidenses desmontaram suas fábricas nos Estados Unidos e montaram na China.

Como é que você desmonta isso? O celular iPhone mais vendido em todo mundo é fabricado na China. Então, como é que você desmonta aquilo? Não desmonta, é muito difícil. As cadeias produtivas têm a China como ponto inicial do seu processo de fabricação. Essa tensão é que explica essa política de contenção da China. É uma tensão comercial, mas tem outras tensões que eu quero registrar para vocês.

A mais importante é a militar. O Mar do Sul da China é o Mar que a China se reivindica como o seu mar territorial, com base nas leis internacionais da navegação marítima aprovada pela ONU, que 200 milhas de qualquer ponto terrestre, inclusive ilhas, que sejam de um país é considerado seu mar territorial.

Mas não é 200 milhas da sua Costa. A China possui e já ocupa muitas ilhas no seu Mar, que distam muito além das 200 milhas. A China transformou muitas delas em centros residenciais, administrativos e mesmo bases militares. É seu direito, pois são ilhas chinesas e aí as 200 milhas contam a partir também dessas pequenas Ilhas. Por isso, o mar territorial fica muito grande e atinge águas de países como Brunei, Vietnã, Malásia. Então, os Estados Unidos evidentemente querem aparecer ao mundo como seus grandes protetores e dizem defender o direito desses países.

Por esse mar passa um terço de todo o petróleo mundial. Para um petroleiro sair do Golfo Pérsico e ir para os Estados Unidos pela Costa Atlântica, ele tem que dar muita volta, passar pelo estreito de Ormuz, entrar no mar Vermelho, passar pelo canal do Suez, entrar no Mar Mediterrâneo, passar pelo Estreito de Gibraltar, entrar no Oceano Atlântico até atingir a costa Leste dos EUA. Isso significa mais ou menos 18 mil quilômetros. Mas, se um petroleiro sair do Golfo e levar petróleo para a costa Oeste dos Estados Unidos, no Pacífico – lembro que os EUA são banhados por dois oceanos – esse trajeto é mais curto. Só que tem que passar pelo mar do Sul da China. Mas não tem problema passar por ali. A China não cria nenhum obstáculo. Ali estão 50% de todas as reservas de pesca e frutos do mar do planeta.

Então, esse é um mar muito cobiçado. Mas, explorado fora das águas territoriais qualquer país pode colocar um navio pesqueiro e fazer o seu trabalho. Acontece que dentro desse mar territorial está a ilha de Taiwan, que não é um país. Gostaria de ser, mas não é, jamais foi e jamais será. Taiwan pertence à República Popular da China, que ela chama de uma província rebelde.

Não há planos, que eu conheça, de a China ocupar Taiwan. Eles esperaram 155 anos para ter Hong Kong devolvida pela Inglaterra. Mais dia menos dia, vai ocorrer a unificação. Acontece que Taiwan é hoje governada por partidos de linha independentista que tem uma maioria relativa, porque muita gente de Taiwan não aceita Independência, não aceita a separação. Consideram-se tão chineses quanto os que nasceram na China Continental.

Não vou contar a história aqui, mas foram para essa ilha de Taiwan que chegou a se chamar Formosa, aqueles que perderam a guerra, revolução, a guerra Popular. Entre 1919 e 1949, houve guerra interna na China, uma guerra civil mesmo, com os tais nacionalistas, que não eram nacionalistas, eram entreguistas, liderados pelo General Chiang Kai-shek. Perderam a guerra em 1º de outubro de 1949, quando Mao instala a República Popular da China. Essa turma de direita fugiu para Taiwan e Mao não foi atrás deles, como quem diz “podem ficar aí, mas essa ilha é chinesa”.

Por alguns anos eles proclamaram a ilha como República da China e até foram admitidos na ONU como representantes da China. A ilha de Taiwan era que votava na ONU em nome dos chineses. Isso durou pouco. A ONU trocou evidentemente e aceitou a República Popular da China que entrou no Conselho de Segurança e hoje, nem os Estados Unidos reconhecem Taiwan. Apenas 15 países de um total de uns 200 países, ainda que membros da ONU sejam apenas 193. Esses 15 países que mantem relações diplomáticas com a Ilha de Taiwan, a China, por certo, não os reconhece e não mantém com eles nenhum tipo de relação.

Nem os Estados Unidos reconhecem, mas vendem para Taiwan bilhões de dólares em armas e transformam Taiwan como, por exemplo, Bahrein, Arábia Saudita em protetorados estadunidenses. São países totalmente ocupados pelos Estados Unidos; são como se fossem simples bases militares. O Estreito de Taiwan é uma região muito movimentada e também muito tensa.

O que aconteceu nos últimos dias que aumentou a tensão na região? Isso é importante de registrar: não são todos os jornais que noticiam isso ou até escondem a notícia. Os Estados Unidos têm sete frotas Navais espalhadas pelo planeta, eles se consideram donos do mundo, consideram-se – não são, em algum período desde 1991, até foram o xerife do mundo quando o mundo deixou de ser bipolar, e surgiu a unipolaridade. A quarta frota que cuida da América do Sul, foi reativado quando o Brasil, em 2007, descobriu o pré-sal. Ela estava desativada desde 1954.

Cada frota naval dessas tem uma nau capitânia que é um porta-aviões nuclear da classe Nimitz, que é o primeiro porta-aviões nuclear, já tem 40 anos. Ele dá o nome para todos os que foram construídos depois disso. Esses porta-aviões nucleares transportam até 90 aviões supersônicos e seis mil marinheiros. É uma máquina de guerra e, vai ao lado dele, o chamado grupo de escolta (Escort Group). São em torno de dez navios do tipo fragata, contratorpedeiro, destroier, submarinos. Os aviões que ele transporta ficam no ar quase 24 horas por dia para manter fechado o espaço aéreo por onde a frota transita.

Nenhuma aeronave pode se aproximar. Fala-se que o porta-aviões é um alvo fácil, porque ele é um aeroporto flutuante. Ledo engano. Você não chega perto e se tentar será abatido antes. A quinta Frota é a que fica dentro do Golfo Pérsico, ancorada na ilha de Bahrein, é um país árabe e insular, uma monarquia absoluta e o Nimitz fica lá. Navega no Golfo a maior parte do tempo, mas às vezes ancora para manutenção.

O Theodor Roosevelt é a nau capitânia da Sétima Frota do Pacífico. Eles têm duas frotas no Pacífico, o Roosevelt fica no mar da China o tempo todo, circulando. Biden deu a ordem, é evidente que não foi da cabeça do secretário Lloyd Austin, secretário de Defesa, um general reformado quatro estrelas. Foi o Biden quem autorizou o deslocamento do Nimitz para o mar do Sul da China, ou seja, o Nimitz saiu do Golfo, passou pelo Estreito de Ormutz, que é um dos menores estreitos do mundo, com 54 Km de extensão (80 metros de profundidade apenas) contornou o Oceano Índico que leva esse nome por causa da Índia, mas é Pacífico, contornou o sul da Índia e o Nimitz encostou, emparelhou com o Roosevelt, Theodor, não é o Franklin.

Isso já havia acontecido antes? Já! Quem é estudioso militar disse que esta é a décima vez que acontece nos últimos 50 anos, ou seja, dois porta-aviões navegando lado a lado. Mas é então um fato inusitado. Por que que isso acontece? Nós vamos verificar nos próximos dias e semanas o motivo disso, mas isto piora o que já era grande tensão no mar do Sul da China.

O outro registro que eu quero fazer sobre a China é sobre a visita da delegação da Organização Mundial de Saúde à China, que tudo tem feito para fortalecer a Organização e paga direitinho sua quota-parte. Os Estados Unidos saíram da OMS na época do Trump e já voltaram agora com Biden. Eles respondem por 250 milhões de dólares do orçamento da Organização, ou um quarto. Vejam o baque que isso teve no meio de uma pandemia. Faço aqui um parêntese: quem não cuidou direito de combater a pandemia está perdendo eleições. Por isso tenho dito e escrevi artigos sobre isso, que as condições políticas neste momento no Brasil estão favoráveis a uma oposição muito mais firme e dura e até do empreendimento do impeachment, porque agora o governo de JB mexe com vidas de brasileiros e já ultrapassamos 240.000 mortos.

No Equador do traidor Lênin Moreno, os cadáveres dos que morreram na pandemia eram jogados na calçada. E isso está acontecendo em todo o mundo. As pessoas estão vendo como os seus governos combatem (ou não) a pandemia. Não por acaso o governador de São Paulo está sendo oportunista no sentido positivo do termo. Ele viu aí uma oportunidade de fazer o que a ciência manda fazer e aí, isso gera o confronto de dois modelos distintos. O Trump enfraqueceu a OMS, a China, a Rússia fortalece a OMS. O que se dizia? Que o vírus era chinês, que o vírus era comunista, o filho dele (Bolsonaro) falou isso no Brasil: “vachina”, “vacina chinesa”, “vírus chinês” e agora não falam mais. Ao contrário, passaram a elogiar a vacina chinesa. É porque só tem ela, a única alternativa no Brasil é essa e mesmo assim nós não vamos vacinar mais do que 5% da população, infelizmente.

E aí a OMS fez uma delegação e foi lá verificar na cidade de Wuhan, que é um mercado que vende carnes exóticas por assim dizer, que muitos nós brasileiros não comeríamos, foi lá e ficaram 14 dias em quarentena, porque eles seguem direitinho os protocolos. Aí começaram a trabalhar, todos paramentados com equipamento de proteção individual-EPI, usando aquelas máscaras maiores. E investigaram se o vírus surgiu ali, se escapou de algum laboratório. Foram em todos os laboratórios de pesquisa biológica na região e não encontraram absolutamente nada.

Ou seja, a OMS, através de uma delegação autônoma, independente, pois a China não tinha nenhum controle sobre ela, recebeu direitinho a delegação e abriu tudo que tinha os técnicos que não encontram nada e acabaram dando um atestado, uma certificação de que o vírus não surgiu ali, nem foi o vírus que escapou de algum laboratório. Uma vitória para a China, que foi injustamente acusada.

É como diz meu camarada e amigo José Reinaldo Carvalho com quem eu faço o programa de quarta-feira, O mundo como ele é, às 10 horas no Canal 247. O Zé usa um termo assim: “essa turma teria que ajoelhar no milho” para pagar as ofensas que fez contra a República Popular da China.

O terceiro fato que eu quero registrar sobre a China é que o Xi Jinping, que em dezembro passado já havia lançado o que se chama o maior o programa e acordo de livre comércio da história da humanidade que envolve os 10 países que já são membros da Asean que é uma associação dos países da Ásia e mais cinco países, todos capitalistas: Japão, Austrália, Coreia do Sul etc.

Aqui também uso o termo oportunista no bom sentido, ele usou uma proposta oportuna. O Trump tinha saído daquilo que o Obama deixou montado, que era o Tratado Transpacífico, que visava reunir todos esses países e fazer um tratado junto com os Estados Unidos de Livre Comércio, nos moldes do chinês. O Trump saiu desse acordo e os países da Ásia ficaram órfãos.

A China fez o seu acordo de livre comércio e por 20 anos não terão mais barreiras e tarifas alfandegárias. O Xi, percebendo que a República da China tem crescido politicamente fez, no último final de semana, uma reunião virtual com todos os países do Leste Europeu e da Europa Central e isso foi também um fato inusitado, do ponto de vista da geopolítica internacional.

Então, foi mais uma – digamos assim – uma rasteira nos Estados Unidos, que estão vivendo um momento de troca de guarda, troca de turno, troca de comando da chefia do império. Então, é uma situação de transição e o Xi está aproveitando porque não houve troca de comando lá.

Quero registrar ainda que, pela primeira vez, a chegada da primeira sonda chinesa à órbita de Marte e com planos de aterrissar no planeta vermelho. A sonda chama-se Tienamen que quer dizer “Porta para a paz celestial”. Então, isso mostra a capacidade tecnológica. Hoje, na corrida espacial, a China já rivaliza diretamente com os Estados Unidos. Em épocas passadas era a União Soviética, agora não é mais. A Rússia não chega perto da tecnologia aeroespacial chinesa.

O Xi tinha mandado um recado para os Estados Unidos: olha, nós estamos abertos ao diálogo, eu só quero saber de vocês se querem que nós cumpramos as decisões que vocês tomam com os seus aliados ou vocês querem construir conosco novas regras, novos métodos e tomarmos decisões conjuntas, ele perguntou. Veja que mudança. É evidente que os Estados Unidos querem que a China cumpra o que eles decidem com seus aliados, França, Inglaterra e Alemanha, mas a China não aceita mais.

Então, esse foi um recado duro. Aí, o Biden ligou, registrou algumas opiniões, o Xi também. O Biden tentou interferir na política interna chinesa e eles pegam pelo tal direitos humanos que é a onda dos últimos 30, 40 anos usados pelos EUA para interferir nos países: eles diziam “vocês estão violando os direitos humanos”. Mas, eles só falam isso nos países que não lhe são favoráveis. Eu nunca vi os Estados Unidos exigirem direitos humanos na Arábia Saudita onde a mulher, até outro dia, nem sequer poderia dirigir um veículo, não pode andar na rua sem que o marido ou algum homem de sua família a acompanhe, eles nunca pediram direitos humanos lá (4).

Os EUA apontam para uma região específica da China, que tem uma população muçulmana grande, uma etnia Hui (uigures), mas que fazem movimentos de fora para dentro, que insuflam essa população contra o governo chinês. Esses movimentos contra a China existem ainda em outras localidades, como no Nepal, Myanmar, no entorno da China e mesmo no Tibete, que alguns dizem que deveria ser independente, mas não é, ele pertence à China. Então, o Biden falou isso e o Xi deu uma resposta diplomática à altura: olha isso é um assunto de interesse da República Popular da China, como quem diz: não se intromete aqui nos seus assuntos internos, porque eu não me intrometo nos seus assuntos internos. E terminou a ligação.

 

  1. Eleições no Equador. 

O primeiro turno das eleições equatorianasaconteceu no domingo dia 7 de fevereiro. A apuração está bem adiantada, o primeirocolocado, AndrésAraus, economista de 36anos, apoiado pelas correnteschamadas Correistas, de RafaelCorreia, ex-presidente que vive exiladona Bélgica e é casado com umabelga, ele não pode entrar no Equador.Os comunistas e socialistas desse país também o apoiam, entre outras forças.

O Equador foi governado quatro anos poruma pessoa chamada Lênin Moreno, apoiado por Rafael quatro anos atrás, mas que se mostrou um traidor, não teve a coragem de sercandidato, porque se fosse, teria menos votos que o tal do LúcioGuterres, que também é um que se bandeou paraa direita e teve 1%.O sistema eleitoral é de dois turnos, só que o modelo deles é igual aoda Argentina.

Sevocê atinge 40%, não precisaser 50% mais um, desde que você tenha 10 pontos a mais do que o segundocolocado, você toma posse.Nãoprecisasegundo turno.Eleteve em torno de 32% dos votose o segundocolocado está batendo em 20%. Portanto, 12% a mais, mas não chegou a 40%. Teremos segundo turno em 11 de abril.

O segundo colocado no Equador é o GuillermoLasso, banqueiro neoliberal de direita que, provavelmente, foi apoiadopor Lenin Moreno. O terceiro colocado é um cidadão que se diz de origem indígena chamado Yaku Pérez que se apresenta como ecossocialista.Achoque não é nenhumadas duas coisas.Nãoé grande coisa no movimento ecológico emuito menos socialista.Achoque ele éum neoliberal e vou arriscar aqui umaopinião que ou ele apoiará o banqueiro ou poderá se colocar neutro ou chamar nulo e branco. Vamos esperar.

E aí o grande exemplo que eu tenhofalado, não é pela etnia, não é pela corda pele, não é pela orientação sexual daspessoas que você determina uma linhapolítica.Estáaí o grande exemplo de umíndio quem não joga no camporevolucionário, não joga no campo daemancipação.Sóporque é índio?E umaparcela da esquerda,ainda que muito pequena, um dos setores do trotskismo, não todos,acham que ele é de esquerda.

Euacho que está acontecendo aquiloque eu já falei em vários programas. Há uma onda progressista mundial, não é sóna América Latinae, quer queira ou não, mas esta onda afetou osEstados Unidos e afetou positivamente.A eleição do Biden, é positiva nocenário Internacional, onde o fascismocontinua forte.Os‘trumpistas’tiveram 74 milhões de votos,como são chamados quem segue o ‘trumpismo’ nos Estados Unidos e Biden teve 81 milhões, maior votação da história.Mas, não é desprezível 74 milhões (5).

É comum usarmos por aqui o termo“bolsonarista”. O nome dessa corrente é neofascismo. O fascismo é um regime político de extrema-direita que vai sobreviver com Trump ou sem Trump, com Bolsonaro ou semBolsonaro.Os neofascistas brasileiros queestavam no armário até junho de 2013, saíram do armário e não voltarão.

Então, eu acho queexistem boas chances de nós retomarmoso Equador,como já retomamos a Argentina, a Bolívia eo Chile que vai ter eleiçãodoCongresso Constituinte em 11 de abril(mesmo dia do segundo turno equatoriano). Nós vamosretomar o Chile.Vamos retomar o Uruguaique a frente Ampla ganhou a Prefeiturade Montevidéu, que significa 70% dos eleitores do Uruguai.Vamosvoltar ao governo do Uruguai.Aí o nosso Brasil vai ficando cercado, uma ilha autoritária, presidida por um neofascista, cercada de países governadospor progressistas por todos os lados.

  1. República Bolivariana da Venezuela.

Euvou falaragora sobre a Venezuela. O que fará John Biden em relação,não só à Venezuela, como outros países cujos temasinternacionais são delicados.Irã, Cuba, a política para o Oriente Médio,especialmente, Palestina, Israel que vivem sob sanções estadunidenses? Biden ainda não disse a que veio. Estátodo mundo aguardando uma opinião dele sobre váriosaspectos.

Mas, para nossa surpresa e demuita gente que acompanha a políticainternacional,ele revogou uma ordemexecutiva de 2015 de nº 30A, da época doObama – ordem executiva nos Estados Unidosé o equivalente ao antigo nossoDecreto-lei daépoca do Regime Militar, quetinha a mesma força que uma lei aprovadano Congresso que estava fechado. Essa “lei” proibia a Venezuela de realizar quaisquer comércios internacionais e punia as empresas que quebrassem essa “lei”.

Mas isso significa que acabou o bloqueio? Não!O bloqueio, foi mantido, a proibição docomércio, está mantida com algumasempresas venezuelanas, que estãosancionadas, pois eles fazem sanções não sócontra países,mas também contra empresas e contrapessoas. Temtambém algumas pessoasda Venezuela que estão sob sanção. Essaspessoas e estas empresas não podemcomercializar.

No geral, todo o comércio foi liberado, exceto a importaçãode insumos petrolíferos para asrefinarias venezuelanas funcionarem, como catalisadores por exemplo, químicos que eles colocam naqueles altos-fornospara quebrar opetróleo e produzir os derivados, nafta, gasolina, querosene de aviação etc. Asrefinarias venezuelanas estão paradas, só não estão totalmente porque o Irãestá fornecendo esses insumos e proibiu também a importação de peças.Às vezes, a refinaria tem um insumo, masnão tem uma peça, uma válvula que a fazfuncionar, porque a indústria venezuelana, talveznão tenha a capacidade tecnológica defabricar essas peças de reposição, mas oIrã também está suprindo estas peças. Também estas peças estão proibidas de serem importadas. Mas, de qualquer forma, foi um passo positivo. Tira parte da economia venezuelana do sufoco.

  1. República Islâmica do Irã.

Registro que em dia 11 de fevereiro passado, completamos 42 anos da Revolução Islâmica do Irã. Khomeini havia chegado do seu exílio na França no dia 1º. Ele estava exilado, não podia ficar no país que era governado, desde 1953 (9 de agosto), quando houve um golpe num primeiro-ministro patriota, não era de esquerda, muito menos comunista, que era Mohammed Mossadegh, que nacionalizou o petróleo. O petróleo era inglês, não era iraniano.

Aí houve o golpe e o Xá Reza Pahlevi, que foi a ditadura mais sanguinária e corrupta pró Estados Unidos, tomou conta do país, mas caiu no dia 11 de fevereiro de 1979. Ele foi exilado nos Estados Unidos onde morreu. Viva a Revolução Islâmica no Irã! Vida longa ao país dos aiatolás que lutam contra o imperialismo e o sionismo.

A questão mais polêmica é sobre oacordonuclear, assinado também em 2015, nogoverno Obama,é o chamado acordo nuclear do Irãmais P5+1.O que é P5+1?Os cinco países do Conselho deSegurança, mais Alemanha. Este acordocontém sete assinaturas, cincodo Conselho de Segurança, Alemanha e opróprio Irã.

Trump tomouposse emjaneiro de 2017 e no dia 8 de março saiu do acordo. Trumptambém saiu do Tratado Transpacífico, saiu do Acordo do Clima de Paris, saiu da OMS, saiu de quase tudo.O Trump é unilateralista,ele não aceita participar deinstituições multilaterais.Nãoconfundirinstituições multilaterais com amultipolaridade do mundo.

Nósdesejamos omundo multipolar,que tenha muitos polos.Agora, umasituação de multilateralidade, reconhecere fortalecer todas as instituições dasNações Unidas,onde os países são membros é muito positivo. Por exemplo, e aproveitando para falaraqui:Conselho dos Direitos Humanos da ONU, que são 47 países membros, os EstadosUnidos saíram,enquanto Cuba, Rússia, participam.

O Trump saiu e o Bidenmandou voltar.E isto é positivo.E por que ele não gosta desse dessesórgãos multilaterais?Porque eles perdemtodas as votações.NoConselho de Direitos Humanos, o votodos Estados Unidos tem o mesmo peso queo voto de Cuba, eissoTrump não aceitava.Porque a assembleiageral é um voto por país, mas ela não tempoder. Quem manda na ONU é o Conselho deSegurança.Então,esses organismos abaixo daAssembleia Geral, OMS, a FAO, a Unesco, a Unicef aOIT, todos os organismos sãomultilaterais e um voto por país, isso é o multilateralismo. O Bidenvai fortalecer o multilateralismo, o queé positivo também.

Temosainda críticas efaremos aoposição que for necessáriaser feita sobre a velha política doimperialismo, se Biden a mantiver. Esperoque nãomantenha, mas creio que será difícil ocorrer mudanças. Isso se explica porqueBiden não é só presidente de um país. Ele étambém chefe de um império e tem que cumprir essepapel. Mas, sabemos que não dá mais para agircomo antes, porque a correlação de forçasdo mundo está sendo alterada.Quandoos Estados Unidos saem do Acordo Nuclear com o Irã, o acordo continua funcionando,e era um acordo com seteassinaturas, ele continuou funcionandocom seis países e a Europa,osoutros países ninguém saiu do acordo.

Mas, num certo momento, acho que noúltimo ano ou ano e meio, o Irã não saiu evidentemente do acordo, masele começou a enriquecer o urânio, acima doestabelecido no acordo, que era 3,96% e passoua enriquecer a 5%. Não temnenhum problema isso. Mesmo se enriquecesse a 20%, também não teriaproblema. O Irã não vai fazer a bomba, o Islã proíbe que você tenha a bomba. O Islã não quer a bomba, qualquer arma dedestruição que machuque e fira pessoas, oIslã não aceita tomar a iniciativa deagredir.Isso estáproibido no Alcorão.

Então, o Irã não quer a bomba emesmo se quisesse, teria que enriquecera 90%. Eles não têmcentrífugas suficientes nem tecnologiapara isso, mas a onda mundial que sefaz é a de que o Irã quer construir a bomba.O Irã disse: assim que os Estados Unidosretornarem ao acordo nuclear, nósvoltamos a enriquecer o urânio a3,96%. Eles sóaceleraram um pouquinho mais porque oenriquecimento é fundamental para ageração de energia.

E aí a pergunta: as sanções que o Irãvive,elas continuarão ou o Biden as levantará?Eu não tenho essa resposta.Euquero crer e vamos dizer, até torçopara que ele suspenda esta sansão, o Irã, que tem 300 bilhões de dólarescongelados em vários bancosinternacionais, inclusive nos Estados Unidos.O Irã não pode usar esse dinheiro. Sejaem barras de ouro ou em dólares, que é a moeda de entesouramentopessoal e dos países.Não há outra moedaalternativa no comércio internacional, pelomenos não até o momento. Será que os EUA liberarão esses bilhões de dólares ao Irã? Será que exigirão que essa quantia seja usada na compra de equipamentos e produtos estadunidenses? Não tenho essas respostas ainda. Quem se interessar sobre política internacional na nova gestão dos EUA pode ler meu mais recente artigo sobre esse tema (5).

  1. Serguei Lavrov.

É o atual ministro das relações exteriores daFederação Russa, que já foi umdia a União das Repúblicas SoviéticasSocialistas e guarda muito dessa época,por isso que a Rússia ainda é odiada pelos Estados Unidos.Algunsanalistasinternacionais – e eu não estou entre esses –, acham que os Estados Unidos vão afrouxar coma China e vão endurecer com a Rússia, que ainda tem o segundo maior exército eo segundo maior arsenal nucleardo mundo.A China está longe de terapenas 10% das ogivas que a Rússiatem e que vieram da época da UniãoSoviética.

Lavrov concedeu uma entrevista que foimuito boa e positiva.Mostraque a Rússiajoga um grande papel para ofortalecimento e a construção do mundomultipolar que nós ainda não chegamos nele (6).Eunão canso de dizer que o mundo viveuma transição da unipolaridade paraa multipolaridade, mas nós não chegamos nelaainda. Acho que atéestamos próximos, mas não está aindaconsolidada.

É aquilo que Marx chama no sistema detransição se você fizer aqui umateoria dos conjuntos, um sistema que está acabando e outro sistemaestá começando.Essemomento daintersecção, é o chamadomomento de transição, nem o velho sistemadesapareceu nem o novo se consolidou. Nósvivemos isso em políticaInternacional na geopolítica mundial. Mas,estamos perto da multipolaridade.

Então,quero registrar que esse ministro dasRelações Exterioresda Rússia,é muito bom, e um dos mais antigos no posto e acompanhao Putin que este ano faz 22 anosde poder na Rússia. O Xi até poderá chegar aisso, pois ano que vem completa 10, mas mudaram a Constituição e ele podese reeleger agora sem limites.Anteshavia olimite de uma reeleição. Agora não há maise todo mundo aposta que ele será reeleito, pois está fazendo um bom governo.

A era Erdogan, também está chegandoaos 20 anos. Então, temos uma situação nomundo, onde, vamos dizer assim, não há umarenovação na política.Nem achoque seja essauma condição, se o povo está gostando dopresidente, do primeiro-ministro, deixaele continuar governando.Franklin Delano Roosevelt, foi eleito em 1932, reeleito em 1936, reeleito em1940, e reeleito em 1944 e, se não morresse,teria sido reeleito em 1948.Nãohavia limite nos Estados Unidos denúmero de reeleição, até que limitaram. Então, isso é um direito líquidoe certo.

  1. Myanmar.

As últimas observações que euquero fazer é sobre Myanmar,ondeaconteceu um golpe de estado no dia 7 de fevereiro de 2021. Os Estados Unidos e a China têm posições distintas sobreesse episódio.OsEstados Unidos estãocriticando o golpe e, no caso, elestorcem pela volta dos governantesanteriores que eram hegemonizadas porAung San Suu, que foi Prêmio Nobel da Paz, que é uma burguesa e defende ademocracia, mas não é do nosso campo.

OsEstados Unidos, então, querem que Myanmar que é vizinha da China e tem 65milhões de habitantes, com um PIBpequeno,que volte o governo anterior.O problema éa geopolítica, a fronteira, se construir umabase militar ali, a China fica cercada.Comoestão fazendo uma base militar na Ucrânia e secaísse Bielorrússia, a OTAN montaria umabase lá. É o cerco, estão cercando ospaíses que lhes são adversários nãonecessariamente socialista, a Rússia não é mais socialista.

Nãoé que a China apoie o golpe. A China diz que esse é um assuntointerno dos myanmarenses. É um país que não existia como o país,mas vem de uma etnia e civilizaçãolá de 1050, é muito longeva, país essencialmente budista.

  1. Vacinas em Cuba.

Umregistro que eu quero fazer ésobreessa onda que estão falando: vaipara Cuba e volte vacinado. Eunão vi nenhum pronunciamentooficial do governo de Cuba dizendo isso. Que você deve ir para Cuba, eutambém acho e na primeira oportunidade euvoltarei para Cuba.

Mas, as vacinas cubanas não estão nafase final,que é a fase três. A vacina deles, a principal, que está mais avançada na pesquisa, é a Soberana.Temquatro vacinas sendopesquisadas em Cuba. Elesvão fabricar100 milhões dedoses, não só para Cuba. O Povocubano temdoze milhões dehabitantes.Portanto,precisam de 24 milhões de doses, maso que sobrar e for sobressalente eles vãofornecer para os países mais pobres daregião. Mas, não está na fase deprodução final industrial.Essesmemes que circulam por aí, a gentetem que prestar muita atenção quando nós osreproduzimos.

  1. Revelações da Vaza Jato.

Vouencerrar e não podia deixar defalar e não é um assunto só nacional, as últimas revelações dos conteúdos dos hackers de Araraquara, a que a defesa de Lula teve acesso por decisão do STF. Eu mandeiimprimir as 37 páginas, que é o documento do perito que são as conversas telefônicas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol e deste com outros procuradores. Estou lendo, porque também estou ouvindomuita mentira sendo divulgada, colocandofrases na boca do Moro e Dallagnol que, pelomenos não apareceram até agora, euacho que são tão escandalosas que devem ser mentiras. E isso é feito a partir de que?É possível que a esquerda faça memes dessetipo, sim, se alguém da esquerda fazestáerrado.Nós devemos prezar pela verdade.É provável que esse tipo de fraude dos diálogos sejafeitopor bolsonaristas, que hoje são anti-moristas, para desmoralizá-lomaisainda do que ele já está.

Noentanto, tem uma questão que eu nãopoderia deixar de falar, que é verdadeira.É a confissão do envolvimento daCIAe com o golpe, com a prisão de Lula etodas os desdobramentos geopolíticos que nósconhecemos. Então, euquero fazer esse registro para encerrareste trabalho.

  1. Podem assistir neste endereço: <https://bit.ly/3pjHLVS> que foi ao ar dia 11 de fevereiro de 2021.
  2. Interessados nesse serviço podem enviar um e-mail para ele no endereço: [email protected]
  3. Em votação final do impeachment de Donald Trump ocorrida no sábado, dia 13 de fevereiro de 2021, ele foi inocentado por 43 votos a 57. Para ser aprovado deveria ter alcançado 67 votos (dois terços do senado).
  4. Veja aqui nesta notícia a opinião de Jamil Chade, correspondente da Folha na Europa sobre isso: <http://bit.ly/3jNa65T>.
  5. Minha análise sobre as primeiras mediadas de Biden pode ser lida neste link <https://bit.ly/2YX4E6U>.
  6. Veja a entrevista onde ele menciona que romperá relações com a UE se esta impor sanções à Rússia no link <http://glo.bo/3qoQ6Js>.

* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor de 14 livros, pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, do Canal Outro lado da notícia, do Canal Iaras & Pagus, do Canal Rogério Matuck, do Canal Vai Ali, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Grabois, Brasil 247, Outro lado da notícia,Vozes Livres e Vai Ali.

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