Prof. Lejeune Mirhan Sociólogo,Escritor e Arabista. Diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SPColunista do Portal Vermelho e da Revista Sociologia Celulares: +5511-99887-1963+5519-98196-3145 Trabalho: +5519-3368-6481

A propósito do projeto da escola sem partido

Lejeune Mirhan*

A direita tem utilizado o termo “escola sem partido”. Eles saíram na frente e se apropriaram de um slogan que tem tido certo apelo popular, pois leva um cidadão com informações medianas a apoiar a proposta por achar que a escola esta sendo “aparelhada” por partidos políticos de esquerda. O projeto eleitoral vencedor no segundo turno das eleições em 28 de outubro é claramente fascista, autoritário. E esta claro que aprovar uma legislação que restrinja as liberdades de discussões nas escolas passa a ser prioritário para esse grupo que venceu o pleito. Na prática, o que eles querem é “uma escola só com um partido, o deles”.

Um pouco de história sobre a discussão

Para não retrocedermos muito no tempo, o mais importante a registrarmos neste momento é que o único estado brasileiro a ter uma lei estadual aprovada – em praticamente todos tramitam projetos de leis semelhantes – foi Alagoas. O projeto de lei original foi de autoria do deputado Ricardo Nazinho, do PMDB. A votação ocorreu em 9 de maio de 2016 e foi aprovada por 18 votos a oito. Virou lei nº 7.800/16. Logo em seguida a isso, as duas confederações nacionais de professores, a CONTEE (setor privado de ensino) e a CNTE (setor público) ingressaram no STF com uma ADI, onde o ministro Roberto Barroso concedeu uma liminar suspendendo a aplicação da lei estadual. Está marcado para o próximo dia 28 de novembro, uma quarta-feira, o julgamento do mérito no plenário. Será um grande embate jurídico e político. Fala-se nos bastidores que o Supremo possa emitir um posicionamento na linha do que fez antes do segundo turno, quando proibiu qualquer juiz de autorizar invasões de universidades (mais de 30 haviam sido invadidas por ordens judiciais).

No entanto, o espírito da proposta continua circulando pelo país afora. Seja em projetos de leis em centenas de câmaras municipais, sejam em assembleias ou mesmo na Câmara dos Deputados e Senado Federal. Os fascistas e obscurantistas, que são milhões, saídos sabe-se lá de qual vala da história, seguem defendendo essa proposta. Argumentam que as escolas são aparelhadas por professores de esquerda que impõe as suas ideologias aos estudantes. Isso vai nos colocar diante de uma situação inovadora, talvez jamais visto em nossa história nem mesmo em períodos ditatoriais.

No último sábado, dia 10 de novembro, realizamos no Sindicato dos Professores de Campinas e região, que congrega docentes do setor privado de ensino de todos os níveis, uma reunião que contou com a presença de 40 associados e o departamento jurídico da entidade. Pretendo não só fazer um relato dos debates ocorridos, mas, ao mesmo tempo, abordar questões relacionadas com a temática de “escola sem partido”.

Ataques à liberdade de conhecimento

É comum nós mesmos, militantes do campo progressista, argumentarmos que uma lei dessa sería uma lei da mordaça, da censura. Mas não é só isso. Uma legislação que proíba o livre debate nas salas de aula é na verdade uma lei contra a liberdade de conhecimento, ou seja, nossas crianças e jovens teríam impedidos de terem acesso a fatos e dados fundamentais da história do Brasil e de toda a humanidade. Como abordar a escravidão que vigorou em nosso país por 388 anos (e muito mais do que isso) sem condená-la?

Defendemos uma escola plural, democrática, laica e científica, onde todas as correntes de pensamento, todas as teorias científicas possam ser livremente ensinadas. Como imaginar uma educação onde só possamos ensinar aos alunos os conteúdos com os quais eles próprios possam estar de acordo? Vivemos – já desde antes mesmo das eleições presidenciais – uma guerra semiótica, uma guerra de informações, uma guerra onde o celular é ele próprio uma arma de guerra. Em dados momentos ele pode estar a nossa favor, mas em outros ele é usado contra nós.

As igrejas pentecostais – e não confundir com as protestantes clássicas em geral (luterana, anglicana, calvinista, batista, metodista e presbiteriana) – quase mais nada têm a ver com o cristianismo tradicional. Se no catolicismo cristão tradicional existe o acolhimento e a tolerância para com o diferente, onde se pensa nas desigualdades como injustiça, com essa nova onda evangélica que assola o país vamos presenciar a existência de um “inimigo”, ainda que tenha que ser fabricado. E “nós” somos esses inimigos. Nós aqui bem entendido, professores em geral que nos atemos estritamente aos programas estabelecidos nas escolas. O pessoal defensor desse modelo de escola dita “sem partido” – ou só com o partido deles – quer o professor como um feitor, destituído de senso crítico, de ideias, de instigadores do pensamento crítico, dos debates. Aliás, mesmo nas escolas atuais já quase não discutimos mais política. É comum lançarem mão de um ditado popular que se diz: “política, religião e futebol não se discute”. Como sería imensamente chato um mundo onde esses três temas jamais pudessem ser discutidos. Guardados o respeito, a harmonia, a civilidade, acho que nenhum tema deve ser banido das salas de aulas como quer essa gente.

A direita fascista, os neopentecostais trabalham com o medo. Tal qual Hitler e o nazismo faziam. Nós trabalhamos com a convicção, com o convencimento, a compreensão. Trabalhamos por paixão e com amor. E para isso devemos usar nosso afeto. Sempre disse que o segredo para ser um bom professor não é só o domínio do conteúdo que se quer ensinar, mas o fundamental é que acreditemos no que estamos ensinando. E ensinar o nazismo não significa acreditar nele, mas exatamente mostrar as suas consequências e malefícios que trouxeram para a humanidade.

Alguns casos relatados

Eu quero destacar dois fatos que foram relatados na reunião de professores. Um deles é um professor que, ao entrar em sala de aula no dia seguinte ao segundo turno, escreveu na lousa – como muitos o fazem quando entram – a seguinte data: 29/10/1964. Fez um debate com seus alunos que foi muito bom e tranquilo. No entanto, ao deixar a sala após a aula um colega seu fotografou a lousa e o denunciou à escola e à secretaria municipal da sua cidade, bem como colocou em algumas redes sociais. Isso causou um verdadeiro transtorno ao professor envolvido que ele só agora consegue se recuperar. Vejam que o fascismo está presente em todos os lugares.

Este segundo caso que vou relatar – não citando nomes e locais, claro – é bastante mais grave e de alta complexidade jurídica inclusive. Um professor de biologia, por dever de ofício, precisa ensinar em determinado ano do ensino médio, a teoria da evolução de Charles Darwin. Ainda que ela se chame “teoria”, é a forma mais comprovada e científica de demonstrar como os seres vivos evoluíram com o passar dos tempos pela adaptação dos melhores preparados (não os mais fortes, como muitas vezes se deturpa) foram se modificando com os milhões de anos da evolução.

Começam a aparecer [email protected] que se recusam agora a aprender essa teoria, com base no que apreenderam nas suas casas e nas suas igrejas que frequentam de que existe um deus criador que tudo criou e tudo fez e rechaçam com veemência o pensamento darwinista. Pois bem, esse professor em uma das suas provas de avaliação para que ele possa acompanhar o desenvolvimento intelectual dos seus alunos, elaborou uma questão sobre essa teoria. Pois não é que um dos alunos respondeu da seguinte forma: “recuso-me a responder essa questão por estar em desacordo com a minha forma religiosa de pensar”. Isso é uma absoluta novidade. Você se recusar a estudar religião em uma escola que possa ter essa disciplina no currículo sob a alegação que é ateu é perfeitamente compreensível. Como o é também o jovem de 18 anos em alguns países que se recusam a fazer o alistamento militar obrigatório sob a alegação de que sua religião não permite ou sua consciência pacifista se recusa a participar de eventos militarizados.

Mas, como deve proceder o professor, que é obrigado a avaliar seus alunos pelo conteúdo a ser ministrado de forma obrigatória e um determinado aluno seu se recusa a responder uma questão? Ele deve dar “zero” nessa questão a esse aluno? E se o aluno der “queixa” na direção da escola? Ou abrir um processo judicial? São situações que jamais nos imaginamos presenciar. Nesse sentido, lembra-me o lendário e fantástico filme que relata algo parecido com isso, cujo título é “O vento será a sua herança”. Trata-se de um filme magnífico de 1960 (há uma refilmagem de 1999) que relata um episódio de uma disputa judicial em 1925 no Estado do Tennessee, EUA, que ficou conhecido como o “Julgamento do Macaco”, quando um professor de biologia foi processado por ensinar Darwin e a Evolução em sala de aula.

Este caso é completamente distinto. O aluno se recusa a aprender! E se ele não estuda, não sabe e não pode responder questões na prova referente a esse tema e outros que “sua consciência” (sic) não quer aprender. Onde vamos parar se essa moda pega? Que deve fazer o docente? Que base jurídica nos dá respaldo para enfrentar essas novas questões?

Algumas recomendações gerais

A fase que vamos entrar na vida política de nossa país é inédita. Seguramente, não passamos por isso em nenhum momento da nossa história. O período mais fascista de 1937 até 1943 de Vargas e 1969 a 1973 na ditadura militar de 1964 houve perseguições, banimento dos comunistas, prisões, mas não havia tecnologia de Internet e aplicativos de comunicação instantânea que propagam o tempo todo mentiras que são recebidas pelas pessoas como verdades absolutas.

Como disse o advogado do SINPRO, presente na reunião, temos que levar uma vida tendo como certo que a privacidade que um dia podemos ter vivido não existe mais. Não há um só dispositivo eletrônico móvel hoje que não possa filmar e gravar tudo o que ocorre ao nosso redor. Assim, ao final da reunião, com base no que pude anotar, são as seguintes as orientações que emanaram da reunião.

1. Muita calma, muito uso de bom senso e muita responsabilidade no que fazemos em sala de aula;

2. Temos que fazer cumprir, sempre que possível, o programa escolar de cada disciplinas que somos responsáveis, lecionando da melhor forma possível e na sua totalidade, o que foi anunciado no primeiro dia de aula;

3. Os professores/as devem coordenar com equilíbrio os debates em sala de aula, ouvindo sempre as duas partes, evitando a perda de controle dos mesmos;

4. Na hipótese de que esses debates saiam do controle dos docentes, a coordenação e a direção da escola devem ser avisadas e relatos devem ser feitos, para precaver no futuro o próprio docente.

Pode ser que nada disso vá resolver os casos que possamos vir a enfrentar nesta fase que vivemos. Mas, são bons conselhos. O autoritarismo e o fascismo só podem ser barrados nas ruas, com as lutas das massas com o povo organizado e consciente. Essas são nossas principais tarefas, como venho dizendo há tempos. Cuidar da organização popular e elevar a consciências das massas, em especial dos militantes e dirigentes das entidades representativas dos segmentos sociais. Temos convicção de que essa fase que vivemos será passageira e, ao final, venceremos barrando o avanço do fascismo.

*Sociólogo, professor universitário (aposentado), escritor e Analista Internacional. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep (1986-2006). Possui nove livros publicados nas áreas de Política Internacional e Sociologia. É colaborador dos portais Fundação Grabois, Vermelho, da revista Sociologia da Editora Escala, Duplo Expresso, Brasil 247. Todos os livros do professor podem ser adquirido em seu próprio site no endereço www.lejeune.com.br

A reforma do ensino médio do governo golpista e a Retirada da obrigatoriedade do ensino de Sociologia

Todos sabem que o governo golpista retirou a obrigatoriedade do ensino de Sociologia e Filosofia das escolas de nível médio no Brasil, fruto de uma luta árdua de pelo menos 11 anos. Fez recentemente uma reforma do ensino médio que favorece aos que defendem que esse grau de ensino deva servir apenas para a formação de mão de obra para o trabalho. Farei aqui neste artigo um pequeno histórico de nossa luta nacional, bem como tentarei analisar a famigerada reforma, a quem ela serve e seus impactos, desmascarando inclusive a balela de que as disciplinas de S&F atrapalham o ensino de matemática (sic).

Lejeune Mirhan *

Um breve histórico

O ensino obrigatório de Sociologia em nossas escolas de nível médio vem na verdade desde o início da República em 1889, quando Benjamin Constant, um grande positivista, a defendia em todas as escolas. De lá para a disciplina entrou e saiu dos currículos das escolas de nível médio, algumas vezes foi obrigatória, outras optativas.

No entanto, seguindo padrões de qualidade internacional dos países com os melhores índices educacionais, quando do debate da nova LED (Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) pelo Congresso Nacional, em um primeiro momento, a Câmara dos Deputados, através de seu então deputado federal Renildo Calheiro (do PCdoB e ex-prefeito de Olinda por duas gestões) fez aprovar a primeira versão em seu artigo 57 que a Sociologia e Filosofia eram matérias obrigatórias.

Ao ir para o Senado, o relator da matéria foi o grande antropólogo e educador, então senador pelo PDT de Leonel Brizola, Darcy Ribeiro praticamente reescreveu a proposta de LDB. No entanto, manteve a obrigatoriedade em seu artigo 36, ainda que com uma redação não explícita. Que dizia esse artigo? Que os egressos (formados) do ensino médio deveriam “demonstrar conhecimentos de S&F”. ora, para um cidadão de conhecimento mediano, para uma pessoa demonstrar conhecimento de algo tem que ter estudado esse “algo”, ou seja, ter as duas disciplinas humanísticas nos currículos.

Assim, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, ele mesmo um sociólogo reconhecido até internacionalmente, sancionou na íntegra a nova LDB que leva o número de 9.394 de 20 de dezembro de 1996. É preciso registrar que, em novembro desse mesmo ano, em Porto Alegre, nas dependências da PUC/RS, eu havia sido eleito presidente da Federação Nacional dos Sociólogos do Brasil – FNSB com, entre outras incumbências, lutar pelo ensino de nossa ciência como obrigatório em todas as escolas.

Uma nova interpretação

Vivíamos à época o auge do neoliberalismo em nosso país. FHC e sua turma á serviço de Washington tentavam privatizar o que fosse possível do Estado brasileiro. E só não o fizeram mais pelo fato que o povo impôs forte resistência.

Pois bem. A presidente do Conselho Nacional da Educação – CNE, que fixa normas e exara pareceres sobre temas educacionais no país, era presidido pela Profª Guiomar Namo de Mello, de triste lembrança. Essa senhora, tucana de alta plumagem, que havia sido presidente da Fundação Roberto Civita (Editora Abril), uma mulher do “mercado” e profundamente neoliberal, resolver dar nova interpretação no artigo 36 da LDB.

Em vários pareceres e mesmo em debates que tivemos com ela, a posição do governo da época era de que para demonstrar conhecimento de algo você não precisa estuda-lo. Ou seja, ambas disciplinas humanísticas fundamentais – a filosofia ensina a refletir sobre a sociedade e a sociologia ensina como analisar essa mesma sociedade) poderiam ser ensinada de forma “transversal” (sic), ou seja, professores de matemática e português, por exemplo, poderiam falar sobre esses temas, sendo desnecessário a obrigatoriedade. Claro, não era obrigatório, mas as escolas e os sistemas estaduais de ensino tinham liberdade para fazê-las obrigatórias em suas redes estaduais de ensino.

Logo no início no ano legislativo de 1997, o então deputado Padre Roque, do PT do Paraná, ele mesmo um filósofo e sociólogo, apresentou na Câmara o PL nº 3.178 que dava nova redação do artigo 36 de forma a ficar claro a obrigatoriedade das disciplinas em todas as escolas de nível médio no país, públicas ou privadas. A FNSB e todos os sindicatos de sociólogos que existiam no país (cerca de dez) em conjunto com os sindicatos de professores dos estados (públicos e privados) eram nossos aliados preferenciais. As suas respectivas confederações sindicais – a CONTEE e a CNTE – deram total apoio, em conjunto com todos os setores e segmentos sociais, com a CNBB, ABI, as centrais existentes à época, entidades de mulheres, negros, de bairros e a UNE e a UBES. Todos eram a favor da obrigatoriedade.

O PL tramitou na Câmara e foi aprovado nas suas comissões e no plenário. Seguiu ao Senado, onde a luta foi titânica. O então líder do governo FHC, o famigerado Romero Jucá, toma o microfone na sessão decisiva e conclama, orienta, os senadores “da base” a votarem contra esse projeto, pois ele acarretaria elevação dos custos educacionais e não teríamos tantos professores assim.

A batalha foi boa e travamos o bom combate como se diz. Tivemos aliados importantes à época, como a socióloga Roseana Sarney e o filósofo Álvaro Dias que fizeram discursos firmes de apoio (essas pessoas hoje encontram-se no campo que chamamos de golpistas; mas isso é outro assunto). Estávamos nas galerias. Uns poucos sociólogos e professores de filosofia. Finalmente, saiu o resultado da votação. Vencemos por 40 votos a favor contra 20. Uma grande vitória.

O PL foi à sanção presidencial. FHC escolheu o dia que o lutador do povo Ernesto Che Guevara fora preso em 1967. No dia 8 de outubro de 2001, FHC, um sociólogo, seguindo diretrizes até do Banco Mundial de Washington, veja integralmente o projeto. Uma frustração geral na época. Registramos que era ministro da Cultura o sociólogo Francisco Weffort (ex-PT) e no MEC ocupava um alto cargo o professor da USP José Álvaro Moisés que apoiaram o veto.

A FNSB e todos os sindicatos orientaram que agora a luta deveria ser nos estados. E a obrigatoriedade podería se dar por leis estaduais, por normas dos conselhos estaduais de educação, por normas administrativas das secretariais estaduais de educação e até mesmo pela exigência dos vestibulares ais concorridos, de forma que as escolas seriam forçadas a adotar as disciplinas.

A nova fase da luta

Isso foi feito. Praticamente todos os estados tivemos deputados estaduais que apresentaram leis respectivas. Muitos aprovaram. Apenas os estados governados por tucanos (como em SP, à época com Alckmin) vetaram as leis aprovadas pelas assembleias legislativas estaduais. Nossa avaliação era de que já em 2003, cerca de 20 estados já obrigavam o ensino de ambas as disciplinas, que abrangiam mais de 80% de todas as escolas médias do país. E mesmo os que não obrigavam por leis e normas, centenas de escolas adotavam por decisão própria, já que a LDB dava margem para incluir as chamadas “disciplinas optativas”.

Com a eleição de Lula e a posse de um novo congresso mais arejável e progressista, ocorrida em fevereiro de 2003, um novo projeto de lei foi protocolado na Câmara. Ele levava o número de 1.641/2003 e era de autoria do deputado socialista do Maranhão, o médico Dr. Ribamar Alves (após a aprovação da lei em 2008 ele viria a fazer o prefácio do meu nono livro que tratava desse tema).

O PL tramitou na Câmara e como o anterior, fora aprovado por unanimidade. Na sua chegada ao senado, visitamos todas as comissões, os líderes das bancadas. Tivemos apoio da totalidade dos partidos. Era líder do PT à época Ideli Salvetti, que nos dera forte apoio. Até o PSDB e DEM nos apoiaram. Fizemos a política mais ampla possível. E, para nossa alegria, fora aprovado por unanimidade também no Senado Federal e iria para sanção presidencial.

Queríamos que o presidente Lula – um “torneiro mecânico” como ele sempre diz de si próprio – o sancionasse. Não foi possível. Ele se encontrava em viagem internacional na Europa. Tivemos o prazer, de qualquer forma, de conhecer de perto o vice-presidente Dr. José Alencar, que, em 2 de junho de 2008, no salão de ato do Palácio do Planalto, sancionava a Lei nº 11.684 na presença do ministro da Educação Fernando Haddad (com quem estivemos mais de cinco vezes para articular o apoio do governo à aprovação da Lei).

Assim, de forma conclusiva desta parte, nossa árdua luta durou quase 11 anos. E – como dizíamos à época nas palestras e em dezenas de artigos – o governo de um sociólogo vetou e o de um operário metalúrgico sancionou. Emblemático essa comparação.

O governo dos golpistas e sua reforma do ensino médio

Em que pese ainda hoje termos setores na esquerda – minoritários, é verdade – que ainda não se convenceram que houve um golpe de estado no Brasil em 2016, derrubando uma presidente legítima e eleita por 54 milhões de brasileiros – as coisas vão ficando cada dia mais cristalinas. Deram o golpe para retirar direitos dos trabalhadores. Deram o golpe para entregar nosso petróleo às irmãs petroleiras. Deram o golpe para restringir ainda mais nossa nascente e frágil democracia. Deram o golpe para prender Lula, o maior líder popular da nossa história, depois de Prestes e Getúlio. Mas, deram o golpe também para promover uma reforma no ensino médio das mais restritivas.

Senão vejamos. É antiga a luta entre duas concepções distintas entre educadores no país. De um lado, os que defendem uma educação mais inclusiva, que leve cidadania aos milhões de jovens entre 14 e 17 anos. Que os prepare não para o ingresso nas universidades e para enfrentarem vestibulares e exames nacionais. De outro lado, tem os que defendem uma educação mais excludente. Para poucos. Que prepare essa imensa massa de jovens, milhões de jovens, apenas para o trabalho e apenas alguns deles – os mais abastados que podem pagar colégios mais caros – é que deveria seguir estudando e cursar uma universidade.

Quando lutamos pela existência de um currículo único e mínimo nacional – nada contra que cada região do país possa ter disciplinas específicas de suas realidades, que contem suas histórias. Mas, na concepção de Nação que temos, precisamos que estudantes do Oiapoque ao Chuí tenham assegurado um conjunto mínimo de disciplinas e entre essas devem estar seguramente S&F, conforme determina a legislação vigente.

Mas, o governo reacionário de turno pensa diferente. Seu “ministro” da Educação, um reacionário de Pernambuco que jamais teve qualquer ligação com ensino e universidades, passou o rolo compressor na educação brasileira. Sem nenhum debate e usando apenas peças de propaganda nas mídias compradas pelo próprio governo golpista, passaram a defender um “novo ensino médio” (sic).

Na verdade, é uma volta ao passado, quando nas décadas de 1950 e 1960, existiam os cursos de ensino médio que levavam nomes como “científico”, “clássico”, “normal” (formação de professores). Eram currículos completamente distintos, ou seja, nem todos os alunos matriculados nesses cursos estudavam o mesmo conjunto básico de disciplinas em todo o país. Perdia-se assim, a concepção de Nação e de Estado Nacional. Cada estado e cada sistema de ensino adotava o seu próprio modelo educacional voltado aos interesses – geralmente – das elites que governavam esses estados.

A reforma do EM aprovado pelos golpistas vai mais ou menos nessa mesma linha. Dividiram o ensino médio em cinco tipos de modalidades que os alunos vão optar a partir de certo momento de seus estudos. Isso para prepara-los para as distintas áreas de conhecimento das ciências em geral. Como se fosse para “humanas”, “exatas” e “biológicas” entre outras. Ocorre que, por esse formato, S&F ficam restritas a apenas parte do alunado em todo o país, ou seja, basicamente apenas aos que seguirão para a área de ciências sociais, docência, letras etc. O discurso dos golpistas é que S&F não foram retiradas do ensino. Mas, é falso esse discurso. Na prática foram sim retiradas a obrigatoriedade e a Lei 11.684 de 2008 está sendo descaradamente descumprida. E ninguém fala nada sobre isso.

Sociologia atrapalha a matemática?

Aqui não poderia deixar de comentar a mais recente bobagem que uma “pesquisa” possa ter “descoberto”. Há coisa de duas semanas a grande imprensa brindou seus leitores com a notícia de que uma pesquisa realizada a partir de 2009, com os egressos do EM e que prestaram ENEM, para medir seu desempenho em matemática. Eles têm esse ano como corte porque foi exatamente no início do primeiro semestre letivo que os sistemas estaduais de ensino puderam, na prática, colocar em vigência a nova Lei da obrigatoriedade aprovada em meados do ano anterior.

Os “pesquisadores” partiram da suposição de que para incluir S&F tería sido necessária diminuir a carga de matemática. Aqui o primeiro engano. Na quase totalidade dos sistemas estaduais de ensino ocorreu uma ampliação da jornada e da carga horária geral, de forma que não houve diminuição. Sei disso pelo exemplo claro de SP, que estudamos em profundidade (aliás, foi o último estado que aceitou implantar a nova Lei).

E o que é mais importante. Quando da aprovação da nova Lei, pelas pesquisas que tivemos (isso consta de meu último livro sobre o tema, cuja imagem da capa publicamos neste artigo), em torno de 20 estados da Federação já adotavam S&F como obrigatórias pelas mais diversas formas (leis estaduais, normas de secretarias e normas de conselhos etc.). Ou seja, a eventual queda do rendimento em matemática em nada tem a ver com a entrada das duas disciplinas. Não há relação causal nenhuma entre uma coisa e outra. Isso é propaganda diversionista para enfraquecer a concepção sobre a obrigatoriedade de S&F e o capo humanístico do ensino médio.

Tenho convicção que, mais dia menos dia, um novo governo, democrático e popular que emergirá das urnas apoiado por milhões de brasileiros irá saber revogar essa e tantas outras reformas famigeradas que infernizaram e desgraçaram a vida de milhões de brasileiros.

* Sociólogo, escritor e Analista Internacional. Fez mestrado em Filosofia da Educação na PUCC (1982) e Especialização em Política Internacional na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1995). Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep (1986-2006). Possui nove livros publicados nas áreas de Política Internacional e Sociologia, em especial Sociologia no Ensino Médio: Desafios e Perspectivas, de 2015. É colaborador dos portais Fundação Grabois, Vermelho (desde 2002) e da revista Sociologia da Editora Escala (desde 2007). Todos os livros do professor podem ser adquirido em seu próprio site no endereço www.lejeune.com.br

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  • Quem sou

    Sociólogo e professor desde 1981. Fui dirigente sindical da categoria dos sociólogos. Sou escritor, tendo escrito e organizado em parcerias nove livros sobre a temática da política internacional e Sociologia. Atualmente sou analista internacional, com especialização no Oriente Médio e Mundo Árabe, onde estive seis vezes. Sou lutador por um mundo justo e solidário desde 1975. 

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