Prof. Lejeune Mirhan Sociólogo,Escritor e Arabista. Diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de SPColunista do Portal Vermelho e da Revista Sociologia Celulares: +5511-99887-1963+5519-98196-3145 Trabalho: +5519-3368-6481

A volta da tutela militar sobre a Nação

Lejeune Mirhan*

Não sou especialista em forças armadas, militarismo. Conheço muitos colegas sociólogos que estudam esse tema em profundidade. No entanto, realizei pesquisa recente envolvendo a temática da volta da tutela de militares sobre o País e a Nação. E a minha linha de corte temporal é abril de 2016 com a autorização pela Câmara dos Deputados da abertura do processo de impedimento da nossa legitima presidente Dilma Roussef. Não é levantamento final ainda, mas é o mais atualizado que pude fazer.

A crescente militarização do país

Ao assumir o comando do país, os golpistas do PSDB e do PMDB – os dois principais partidos que protagonizaram a derrubada da presidente Dilma – além de terem nomeado um ministério inteiramente branco, de velhos, sem nenhuma mulher e retomou papel preponderante –– para um general quatro estrelas. Durante o primeiro ano do segundo Governo Dilma a Chefia do Gabinete da Segurança Institucional, antigo Gabinete Militar, fora extinto e seu antigo Chefe, o general José Elito Carvalho Siqueira divulgou nota à época lamentando a decisão da presidente Dilma Rousseff. Os golpistas, ao assumirem, recriaram o Gabinete de Segurança Institucional, com certo protagonismo para seu Chefe. O general Sérgio Etchegoyen (foto abaixo), de tradicional família de militares, foi nomeado para a chefia do Gabinete de Segurança Institucional, que tem a ABIN – Agência Brasileira de Inteligência com uma das organizações sob o seu comando e responde pela segurança direta da presidência da República e dos ministros de Estado. É cargo de fundamental importância. Mas não é cargo da hierarquia militar e nem tampouco deve ser privativo de um militar.

A segunda grande e inequívoca demonstração de que o protagonismo dos militares – ou pelo menos parte deles e do generalato que defende a concepção da tutela da sociedade pela caserna – foi a decretação da intervenção militar no Rio de Janeiro, ocorrido em 16 de fevereiro de 2018, a partir de um decreto de nº 9.288 assinado pelo Temeroso presidente. Isso foi feito com base no artigo 34 da Constituição Federal que autoriza a União a intervir nos Estados para resguardar a ordem pública quando ela se vê comprometida. Com isso, ficam proibidas de serem votadas pelo Congresso Nacional quaisquer emendas constitucionais.

O parlamento, completamente subserviente ao executivo de exceção, com uma esmagadora maioria de golpistas jamais vista por nenhum governo eleito desde 1989, aprovou um decreto legislativo, sob o comando do também subserviente e golpista de primeira hora, Rodrigo Maia, que, na prática, viabilizava e autorizava o deslocamento de tropas e a militarização do Rio de Janeiro, cujo governo de Luiz Fernando Pezão passava a ser um simples fantoche dos generais.

Em artigo anterior por mim produzido, sobre as forças golpistas que derrubaram a presidente Dilma – e eu listo seis forças que tiveram algum grau de articulação – eu menciono o generalato. Ele é composto hoje no país por 15 generais quatro estrelas, sendo de nove comandam tropas nas chamadas regiões militares, quatro comandos secretarias importantes na hierarquia da instituição, um deles é o chefe do Estado maior – EME e o último, o general Villas Boas, que é o comandante da força terrestre. Não me aprofundo sobre o perfil desses generais mas são todos – sem exceção, formados após 1970, em plena vigência da ditadura sob o governo do general de plantão e de turno Garrastazu Médici.

Passo a relatar a seguir os generais de quatro estrelas – já passados para a reserva – que têm sido protagonistas na atual conjuntura política. Todos, sem exceção, apoiadores de Jair Bolsonaro. Por isso, quando se diz ou quando leio na imprensa que esse ex-capitão não tería apoio na caserna jamais soube em que realidade essas pessoas que falam e escrevem em que se baseiam. Além do general do GSI, temos o candidato à vice-presidente na chapa fascista – o mais falastrão de todos os vices – o general Mourão. Temos ainda o general Heleno, que teve papel de comando nas tropas de paz no Haiti, bolsonarista roxo e por fim, o ex-chefe do Estado Maior do Exército brasileiro, general Fernando, recém empossado como “assessor” (sic) de José Antônio Dias Toffoli, presidente do STF desde 15 de setembro.

Os generais protagonistas

Todos esses quatro generais da reserva são egressos da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN, por suposto, sendo ela a única escola de formação de oficiais superiores do exército das armas de cavalaria, infantaria, artilharia, engenharia e comunicação. Fundada em 1792, ela irá completar 226 anos em dezembro próximo. Interessante notar ainda que todos esses generais tinham pouco mais de 10 ou 12 anos na época do golpe militar de 1964 (Heleno, o mais velho tinha 16 anos). No entanto, ingressam na ativa, a partir do início da década de 1970, no auge da repressão política no país, sob o governo fascista do general Emílio Garraztazú Médici.

Todos eles, sem exceção foram formados em cartilhas e manuais oriundos do império estadunidense, de Washington, onde muitos deles fizeram cursos – alguns ainda o fazem na atualidade. São produtos da guerra fria, de uma época onde o mundo era bipolar e o Ocidente tinha como objetivo principal e único derrotar o “comunismo ateu” (sic).

Apenas para efeitos de registro – e não vou detalhar sobre sua vida – pela primeira vez desde a criação do Ministério da Defesa em 1999 sob o governo de FHC, nós temos um general quatro estrelas no comando, que é o general Joaquim Silva e Luna. Também ele egresso da AMAN, passa a atuar no ano de 1972, no auge da repressão. Outro da qual não entraremos em maiores detalhes, é o próprio chefe do Exército, general Villas Bôas. Este, pelo seu twitter manda recados ao STF sobre a condenação de Lula, assim como concede entrevista ao jornal O Estado de São Paulo deixando no ar a intenção clara de tutela pelos militares da sociedade brasileira, o que uma parte dela estaría de acordo.

Sérgio Westphalen Etchegoyen– Tem hoje 66 anos. Ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN em 1971. Esse general quatro estrelas é filho e neto de generais, sendo seus pais participantes do movimento que derrubou João Goulart com o golpe de 1964. Seu avô serviu com Getúlio Vargas. Esse general teve uma passagem como coordenador da estranha “Comissão do Exército Brasileiro” vinculada à embaixada brasileira em Washington. Por fim, registre-se, nomeado por Dilma, chefiou o Estado Maior do Exército – EME, que comanda as nove regiões militares do país, todas elas, claro, comandadas por generais quatro estrelas. Bolsonarista roxo e apoiador do golpe contra Dilma desde a primeira hora. Chegou a dar declarações polêmicas contra os movimentos sociais, na linha de “resolver conflitos na base da porrada”, ou como chamamos “criminalização dos movimentos sociais”. Aqui devemos registrar ainda que é de sua inspiração e foi aprovada no governo Dilma, com forte oposição na Câmara e no Senado, sancionada pela presidente sob nº 13.260 de 16 de março de 2016 (um mês antes do golpe) (1) disciplinando o terrorismo, tratando de disposições investigatórias e processuais e reformulando o conceito de organização terrorista.

Sergio Etchegoyen

Na foto, Sérgio Etchegoyen

Antônio Hamilton Martins Mourão– Tem hoje 65 anos. Ingressou na AMAN em 1972. Também ele filho de pai general golpista em 1964. Ocupa hoje o cargo de candidato à vice-presidente da República na chapa do capitão fascista Jair Bolsonaro. O vice disputa com o candidato à presidente quem é o mais direitista deles dois. Mourão é da arma da artilharia, tendo sido também paraquedista. Foi adido militar na embaixada do Brasil na Venezuela e serviu em missão de paz da ONU em Angola. Chegou ao generalato tendo presidido o Comando Militar Sul do País (RS, SC e PR) sob o governo Dilma. Foi transferido desse posto de comando de tropas em função de declarações polêmicas de sua parte na linha de ameaças intervencionistas, tendo sido demitido para cima com a promoção para a chefia da Secretaria de Finanças e Pessoal do Exército. Já como filiado ao PRTB para tentar sair de vice de Bolsonaro, em setembro de 2017 esteve em visita à Loja Maçônica do Grande Oriente de Brasília, onde defendeu – já sob o governo golpista de Temer – que as forças armadas interviriam caso o poder judiciário e o Congresso Nacional não conseguissem controlar o caos vigente no país, segundo ele. Nada ocorreu com ele nesse período, ainda de funções ativas no exército. Só entrou para a reserva em fevereiro de 2018, sendo aclamado (sem eleição), presidente do Clube Militar no Rio de Janeiro, instituição de tradições golpistas.

Hamilton Mourao

Na foto, Hamilton Mourão

Augusto Heleno Ribeiro Pereira– Tem hoje 70 anos, sendo o mais velho de todos os generais quatro estrelas de direita e apoiadores de Bolsonaro que se encontram em evidência no país. Ingressou na AMAN em 1969. Comandou tropas na Amazônia e da Missão de Paz da ONU no Haiti sob o governo Lula, da qual divergiu da estratégia de pacificação do país. Um dos generais da reserva que mais tem dado depoimentos a favor de uma possível intervenção militar. Foi comandante Militar da Amazônia e, nessa condição, sob o governo Lula, deu declarações de contestação às demarcações das terras indígenas, contrariando o manual geral do exército e a própria Constituição Federal que determina que os militares devem estar atentos à sua missão constitucional, qual seja, a da defesa da pátria e das suas fronteiras, sem participação política e subordinados ao comando civil do país. Após sua passagem para a reserva, foi assessor e consultor para assuntos militares e por vezes comentarista de rádio e TV no Grupo Bandeirantes de Comunicação, da família Saad, fundado em 1937. O general Heleno chegou a ser cotado para ser vice na chapa fascista do capitão Bolsonaro, mas desistiu. No entanto, é seu entusiasta e grande apoiador..

Na foto Augusto Heleno Ribeiro Pereira

Na foto, Augusto Heleno Ribeiro Pereira

Fernando Azevedo e Silva – Ainda que não seja dos generais quatro estrelas o mais radical de todos eles – diz-se que sería o preferido de Villas Bôas para sucedê-lo no comando da força – ele foi elevado à condição de quatro estrelas pela presidente Dilma Roussef (2). Existem informações que esse general participou da elaboração do plano de governo de Jair Bolsonaro e até organizou um almoço para seu vice, general Mourão citado acima. Sua carreira no campo conservador vem de quase 30 anos. Foi ajudante de ordens de ninguém menos que Fernando Collor de Mello a partir de 1990. O mais estranho nisso tudo é que ele tomou posse como assessor de ninguém menos que Dias Toffoli, novo presidente do STF desde 15 de setembro. É uma situação inusitada, inédita na verdade. Em tempos recentes de redemocratização, jamais um presidente da Suprema Corte de Justiça do país tivera como assessor um general quatro estrelas. Ele tem sólida formação intelectual militar, sendo bacharel em ciências militares. Fez seu mestrado e doutorado em aplicações militares. De todos os militares citados é o general que mais fez carreira próxima a dos civis, não tendo comandado tropas diretamente, mas apenas o Estado Maior do Exército. Foi nomeado pela presidente Dilma como chefe da Autoridade Olímpica no Rio de Janeiro, de onde ele é natural. De qualquer forma, entendo sua nomeação para assessor de Toffoli como um claro recado para a sociedade e nada bom: os militares querem tutelar mesmo a vida do país e existem civis que aceitam essa condição.

 

Fernando Azevedo e Silva

Na foto, Fernando Azevedo e Silva

Nunca na história deste país precisamos saber de cor e salteado os nomes dos 11 ministro do STF no país, que apoiaram o golpe “com o supremo, com tudo”. Também nunca na vida mais recente tomamos conhecimento e decoramos nomes de generais quatro estrelas como esses seis que aqui mencionei: Mourão, Heleno, Etchegoyen, Silva e Luna, Azevedo e Silva e Villas Bôas. Não queria saber deles. Mas, ao mesmo tempo que constato que eles tem protagonismo, me volta um medo que sentimos nas lutas contra a ditadura 45 anos atrás na minha mocidade.

No momento que escrevo este artigo estamos a quatro dias das eleições em primeiro turno. Talvez as mais importantes desde 1989 quando os brasileiros recuperaram seu direito de voto para presidente. É praticamente certo um segundo turno entre as forças da democracia, representadas por Fernando Haddad, e as forças do obscurantismo, representada por uma chapa puro sangue exclusivamente composta por militares, de viés entreguista aos Estados Unidos, anti-povo, todos a favor da intervenção militar, pelas restrições à democracia, à organização popular e às mais amplias liberdades democráticas. E o que é pior: a favor da aplicação do mais selvagem plano de privatizações da nossa história e retirada de direitos dos trabalhadores, com o seu ultraliberalismo.

Corremos um sério risco de retrocesso, de forma a consolidar o golpe parlamentar desfechado em 2016. Quero crer e ter esperanças que o povo brasileiro, pelo seu eleitorado, jamais permitirá que isso venha a ocorrer, garantindo a vitória da democracia com Fernando Haddad.

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* Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala, da Fundação Maurício Grabois e do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEPentre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo de 2007 a 2010.Recebe mensagens pelo correio eletrônico Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

(1) Aos que quiserem saber dessa famigerada lei leiam aqui https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Antiterrorismo_(Brasil) que tive acesso em 3 de outubro de 2016, às 13h05.

(2) Para maiores informações sobre esse general Fernando ver matéria especial neste endereço: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/nomeacao-de-general-por-toffoli-e-alvo-de-questionamentos.shtml que tive acesso em 3 de outubro de 2018 às 10h56.

As forças que golpearam Dilma Roussef e a eleição de 2018

Lejeune Mirhan*

No próximo domingo, dia 7 de outubro de 2018, teremos nossa oitava eleição presidencial desde 1989, quando elegemos pela primeira vez um presidente pelo voto direto desde 1960. Quem votou em 1960 com 18 anos, tinha naquele ano, 47 anos. Uma pessoa de meia idade. Quem votou pela primeira vez em 1989, tem hoje a mesma idade. Uma grande coincidência. O Brasil mudou profundamente nesse período.

Achávamos que a nossa democracia estava razoavelmente consolidada. Que não precisaríamos mais ir às ruas – como fomos com as mulheres neste final de semana lindo que passou – para defender a democracia, na verdade para pedir a sua volta. Estávamos errados. Sofremos um golpe – de novo tipo, é verdade – em 2016, quando a primeira mulher eleita presidente da República foi destituída do cargo por uma quadrilha – e isso não é força de expressão – que tomou de assalto o destino da Nação. Neste breve artigo, pretendo analisar em mais detalhes quais foram as forças interessadas no golpe, suas razões.

A descrição das forças golpistas

Foram muitas as forças golpistas. Foi na verdade uma junção delas. A história demonstrará, no seu devido tempo, como elas se articularam entre si. Suas ligações, aos poucos têm vindo à tona. De meu ponto de vista pessoal, elenco a seguir, em ordem de prioridade, as seis principais forças que desfecharam o golpe.

1. O capital financeiro internacional – Há muito se fala da força do capitalismo financeiro. Ele foi descrito, ainda que não em profundidade, por Karl Marx em sua obra magistral, O Capital, quando ele fala de “capital portador de juros” (anunciando o capital bancário, já associado ao capital industrial). Mas, foi Lênin em Imperialismo, etapa superior do capitalismo que aprofundou essa temática. O capitalismo na época de Marx era concorrencial, ou seja, ainda se poderia falar em competição entre as empresas. A partir de certo momento, esse mesmo capitalismo sofreu mutação passando a capitalismo monopolista. Mas, o mais interessante é que a mutação seguinte passa a ser para o capitalismo rentista, um capitalismo parasitário, que se reproduz sem que tenha necessidade de passar pelo processo produtivo, sem gerar empregos, sem produzir mercadorias a partir da exploração do trabalho e da obtenção da mais-valia (ou mais valor, termo usado por Rubens Ederle na magistral nova edição da obra O Capital da Editora Boitempo, da qual li novamente todos os três volumes e os resenhei para a revista Sociologia).

O capitalismo das primeiras décadas do século XX foi fortemente influenciado pelo keynesianismo, corrente de pensamento criada pelo economista inglês John Maynard Keynes. Era um tipo “bonzinho” de capitalismo, onde prevalecia um Estado que tinha poder de investimento e era agente forte de indução do desenvolvimento econômico de um país. Essa corrente se fortalece muito a partir da revolução de Outubro na Rússia, onde o Partido Comunista conquista o poder com o proletariado e o campesinato, estabelecendo ampla distribuição de renda e riqueza, melhoria de vida da esmagadora maioria do povo e que passava a servir de modelo em todo o mundo. Ou seja, uma certa melhora no modelo capitalista nada tinha a ver com o sentimento de humanidade dos capitalistas, mas sim com o pavor de que os operários do Ocidente quisessem copiar o modelo da Rússia.

Ainda assim, em 1944, um obscuro economista austríaco, seguidor de Ludwig Von Misses, chamado Friedrich Hayek, publica The Road of Selfdom (O caminho da servidão) (1), onde ele enumera os seus postulados econômicos de “estado mínimo”, criando as bases para o neoliberalismo moderno (completamente diferente de Adam Smith no século XVIII). Essas ideias ficam adormecidas muitos anos. Mas, a partir da eleição de Margareth Thatcher em 1979 na Inglaterra e com a de Ronald Reagan nos EUA em 1980 (posse em janeiro de 1981), as coisas passam a mudar profundamente. Como não pretendemos nos aprofundar neste tema – poderíamos até falar da experiência chilena em 1973 com Mílton Friedmann da Universidade de Chicago – o fato é que, a partir de 1989, com a eleição de Collor de Mello no Brasil, o mundo inteiro era neoliberal. A força dessa ideia – uma ideologia na verdade – derrubaria o Muro de Berlim e colocaria abaixo todo o bloco soviético entre 1989 e 1991, ano da primeira agressão ao Iraque e do início de uma nova era unipolar.

É preciso registrar que nenhum governo de esquerda, centro-esquerda ou chamado progressista, dessa época para cá conseguiu barrar a vigência desse modelo. Dito de outra forma, a verdade é que pelo voto poder-se-ia até chegar a um governo e estabelecer medidas até populares e progressistas, mas jamais toma-se o poder, cujo domínio é determinado pelo rentismo, por esse capital financeiro.

Em nosso Brasil da era Lula – 2002 até o golpe de 2016 – não foi diferente. Os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro, ainda que os capitalistas industriais também o ganhassem. O orçamento da União de 2018 foi estabelecido em R$3.570.000.000.000,00 (3,57 trilhões de reais). A estimativa de gastos com juros serão de 45,11%, ou seja, 1,61 trilhões de reais. Quase metade de tudo que se arrecada. O governo Dilma foi o único que jogou os juros em seu menor patamar da história. Menor que muitos países desenvolvidos. Isso fez com que os rentistas – cerca de 20 mil famílias que detém 70% dos títulos da dívida pública – ficassem profundamente descontentes. Jamais se conformaram que os pobres fossem incluídos no orçamento. Jamais toleraram que se gastasse alguns poucos bilhões com os programas sociais, em especial com o sistema previdenciário – que querem totalmente privatizado – e com o bolsa família. Foi isso, a principal força do golpismo.

2. Imperialismo e as petroleiras – Desnecessário ficar aqui repetindo que nos próximos 30 a 50 anos não teremos nenhuma fonte de energia que possa substituir a dos hidrocarbonetos do petróleo. Em especial desde a segunda agressão ao Iraque em 2003, as coisas ficaram mais escancaradas. Ocupam-se e destroem-se países pelo petróleo. Em 2007, no primeiro ano do segundo governo Lula foi anunciado a descoberta do pré-sal. Que se vislumbrava – confirmada posteriormente – como a maior reserva de petróleo no oceano da história desse ouro negro. A mídia familiar – liderada pela Globo – logo desdenhou. Disse que seria inviável a sua exploração. Que deveríamos deixar que as petroleiras estrangeiras o explorassem. Que a Petrobras não detinha tecnologia para essa extração. Eles já estavam profundamente inconformados com a mudança do regime de concessão para o de partilha na exploração desse petróleo. Exatamente no ano seguinte, em 2008, os EUA reativam a sua IV Frota Marítima incumbida do patrulhamento do Cone Sul do nosso continente americano, que estava desativada desde 1950. Não gosto de teoria conspirativa da história, mas a coincidência é fantástica.

Pois bem. Nas eleições de 2010, quando o tucano escalado para enfrentar as forças progressistas encabeçadas pela presidente Dilma e apoiada por Lula era o José Serra, já estava claro que ele defenderia os interesses das petroleiras estadunidenses. Isso ficou comprovado posteriormente com a divulgação de centenas de milhares de telegramas diplomáticos estadunidenses pelo site WikiLeaks, de Julien Assange. Serra promete à Chevron em particular, a mudança na lei do petróleo. Também esses mesmos telegramas mostraram que Temer, além de o maior corrupto do país, era também agente dos EUA, sendo informante da embaixada em Brasília e do consulado em SP. O imperialismo tenta derrubar o governo bolivariano da Venezuela desde dezembro de 1998 – e já se vão 20 anos – quando o coronel Hugo Rafael Chávez Frias – que tive a honra de estar com ele três vezes no Palácio Miraflores – venceu as eleições. Mas, não tem conseguido sucesso. Foi buscar petróleo em outras fontes. Derrubou o governo do Iraque em 2003, mas teve que deixar o país para os xiitas patriotas em 2012. Destruiu a Líbia, mas seu petróleo que roubam não tem sido suficiente. Jamais conseguirão tomar o petróleo dos persas (iranianos). O que lhes restou? O elo fraco da corrente, que era o governo Dilma. Assim, desfecharam o golpe, apoiando o que eles inventaram à época e deram-lhe o nome de Impeachment (sic). Derrubaram uma presidente honesta e honrada, legitima e sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade.

Por fim, mas não menos importante, a comprovação do que venho falando. Essas petroleiras, com o último leilão do pré-sal ocorrido no dia 28 de setembro de 2018, já controlam a exploração de 75% do pré-sal no Brasil. E têm grandes e profundos interesses como elas mesmo ,tem demonstrado através de artigos e publicações que têm feito em jornais das próprias famílias golpistas, como veremos a seguir (2).

3. Mídia familiar golpista – A mídia no Brasil sempre foi golpista. Não é nosso foco trazer dados e números sobre isso. Essa mesma mídia também é familiar, ou seja, ela é dominada por famílias mais que centenárias que controlam praticamente os maiores e principais meios de comunicação do país. Vou elencar apenas os sobrenomes dessas famílias controladoras da mídia: Marinho (Organizações Globo), Frias (Grupo Folha/UOL), Mesquita (Grupo Estadão), Saad (Rede Bandeirantes), Civita (Grupo Abril), Abravanel (Grupo SBT), Sirotsky (Grupo RBS) e Macedo (Grupo Record) (3). São apenas oito. Se formos nos estender às regiões geográficas e aos estados teremos ainda as famílias Magalhães (na Bahia), Collor de Mello (Alagoas), Sarney (Maranhão) e tantas outras.

Televisões usam sinais de ondas de rádios, as ondas eletromagnéticas, que a Constituição de 1988 – e mesmo antes – determinou como sendo públicas e sujeitas às concessões do poder público, ou seja, ter uma rádio ou uma TV significa ter acesso a um bem público, que é de todos. Ou deveria ser. O que se espera e imagina – como ocorre na maioria dos países desenvolvidos – é que essas ondas eletromagnéticas sejam usadas de forma equilibrada no interesse do povo e da Nação e não no interesse dos donos da concessão e de potência estrangeira.

Mas, a combinação de ódio ao PT, personalizado na pessoa da presidente Dilma, na real possibilidade de que se ela seguisse em condições normais o seu governo, Lula voltaria pelo voto do povo em 2018 e sabedor que o programa anti-povo que eles sempre sonharam em implantar jamais seria aprovado nas urnas, essa mídia decidiu entrar de cabeça na articulação e apoio ao golpe. Ela, que já era francamente defensora dos EUA, do rentismo e das petroleiras, passou a articular e incentivar abertamente a derrubada, via parlamento, da presidente Dilma. Não nos esqueçamos que Lula vinha verbalizando havia tempos que um dos maiores erros de seu governo foi de não ter levado adiante a regulação da concentração midiática, coisa que hoje consta claramente do programa de Fernando Haddad á presidente.

O Brasil republicano viveu dois grandes golpes em sua história. O de 1964 e o de 2016. E a mídia brasileira, que leva o adjetivo de “golpista” com toda a razão, foi precursora desses dois golpes. Mas, teve participação em dezenas de outras tentativas golpistas. Contra Vargas no seu governo de 1950 até 1954, quando se suicidou. Contra Juscelino. Contra Jango, entre outros.

4. O Partido da Justiça – Já se falou por demais que a “justiça” em nosso Brasil dos tempos do golpe virou um partido golpista, um partido direitista, que beira ao fascismo. Também não vamos aqui nos aprofundar nos motivos que levaram a isso. Sejam eles dos dispositivos constitucionais de 1988 – aliás, um dos poucos do mundo onde os promotores têm o poder que aqui tem – sejam eles das tais leis “republicanas” (sic) criadas e aprovadas pelo petismo. E alguns ainda batem orgulhosos no peito pelo que fizeram (a da tal “ficha limpa”, a que permite a prisão deixando de lado a presunção da inocência, autonomia do MPF, TCU e outras barbaridades mais).

Pois bem. O juiz que inova esses procedimentos, fez escola em todo o continente. Ele é seguido e por vezes até idolatrado em escolas de formação de profissionais do Direito. É apoiado descaradamente pela mídia familiar golpista. Expandiu seu pensamento para países vizinhos. É a nova forma do golpismo. Se o imperialismo, para tomar petróleo do Iraque gastou três trilhões de dólares em nove anos, sacrificando inclusive cinco mil soldados, aqui não gastou um centavo, não precisou invadir o território, não precisou dar um tiro, não teve um soldado morto sequer. Bastou contar com um parlamento dócil e subserviente. E achou não só um, mas vários juízes e promotores a se submeterem aos ditames do imperialismo. O juiz Sérgio Moro – que não fala quase nada em inglês – foi para a sede do império muitas vezes. Fez diversos cursos “jurídicos”. Bebeu das novas fontes da ideologia de Washington, emanadas agora pelo veio jurídico. Antes, nossos militares faziam cursos nas escolas de guerra do império. Agora quem os faz são nossos “juízes”. E eles vêm com a ideologia pronta, cabeça feita como se diz. Aplicam rigorosamente a cartilha dos interesses estadunidenses. Falam em nossa língua, o que os jornais e TVs do império falam em inglês.

5. O sionismo internacional – Esta força golpista é a menos mencionada em artigos que tenho visto. É bem verdade que não temos no Brasil um lobby judaico e sionista como o AIPAC nos Estados Unidos (na sigla em inglês Comitê para Assuntos Públicos de Israel e Estados Unidos). Mas, temos aqui a poderosa CONIB, que é a Confederação Israelita do Brasil. Temos mais que isso. Temos uma comunidade, ainda que pequena, muito poderosa e com mais de 90% dela professando um vigoroso apoio ao sionismo.

Dito de outra forma, a comunidade judaica no Brasil é poderosa financeira e politicamente. Tem completo acesso aos meios de comunicação de massa, especialmente TVs (as redes Globo, RBS, SBT entre outras são dominadas por sionistas). Lula jamais foi um “amigo de Israel”. Ao contrário. Lula fazia questão de dizer que era amigo dos árabes e dos palestinos. Fui em vários eventos onde ele discursou nessa linha. Um deles, em um arroubo de arabismo, chegou a dizer que tinha sangue árabe (a que todos riram). Quando esteve em Israel, visitou, é verdade, o museu do Holocausto (como se a matança que Hitler fez nos campos de extermínio tivessem sido apenas de judeus, esquecendo-se comunistas, socialistas, cristãos, muçulmanos, ciganos etc.). Mas, recusou-se a colocar uma coroa de flores no túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl. Mas, o fez no túmulo de Yasser Arafat (na qual eu também coloquei flores por duas vezes).

Desnecessário dizer da força do sionismo internacional. Da sua Agência Judaica. Do controle que eles têm da finança internacional. Dos bancos centrais em todo o mundo, comandados ainda pela família Rothschild. Sua linha central de defesa é a manutenção integral e intacta do Estado sionista de Israel, qualquer que seja seu governo. Sem concessões aos palestinos. Mas, eles têm apoio mundial de todos os que se proclamam sionistas. Não há sionismo de “esquerda”, ainda que eu tenha conhecido alguns aqui em nossa terra que assim se dizem. O sionismo é movimento neocolonial que se alia com o imperialismo para atingir seus objetivos de tomada das terras dos palestinos, em meio à Nação Árabe.

Já escrevi e teorizei sobre o chamado sionismo cristão. Talvez até mais perigoso que o sionismo político judaico. Ele propaga que a profecia bíblica da segunda volta do messias ocorrerá quando a Terra de Israel e a cidade santa (para três religiões monoteístas) de Jerusalém forem governadas por judeus/hebreus. O sinal mais recente disso é a mudança que os EUA fizeram de sua capital que ficava em Tel Aviv para Jerusalém. À revelia de todas as resoluções da ONU apoiada pelo próprio imperialismo estadunidense.

No Brasil não há movimento judaico forte pró-Lula ou mesmo pró-PT. Ainda mais agora que o candidato do Partido dos Trabalhadores e do nosso campo progressista é um dileto filho de imigrantes libaneses, que trabalhou como vendedor de “secos e molhados” na famosa rua 25 de Março, onde os árabes dominavam o comércio local. Talvez o único rabino que andou dando declarações a favor de Lula, Jaime Fucz (talvez parente de Luíz Fux do STF, golpista).

6. O generalato –Pode-se dizer que o dia 15 de março de 1985 foi a data em que se encerrou a ditadura militar. Em janeiro daquele mesmo ano, Tancredo Neves, tendo como vice José Sarney, foi eleito de forma indireta, pelo famigerado colégio eleitoral, para ser presidente do Brasil por seis anos (encurtados depois pela CF de 1988 para cinco anos na ADCT). O candidato dos militares golpistas de 1964 era um civil pela primeira vez, que foi o Paulo Maluf. Perdeu fragorosamente (480 a 180 votos).

As forças armadas, em especial o exército – fundado por Dom Pedro I em 1822 – sempre influenciou a política nacional. Entre 1945 e 1960, marechais e brigadeiros disputaram eleições na onda do pós-Guerra. A marca golpista está na história, na tradição da força terrestre e mesmo naval. A própria proclamação da República foi na verdade uma quartelada, um golpe de estado desfechado por Deodoro da Fonseca. E são muitos os exemplos. É como se as forças armadas em geral fossem uma espécie de guardiães da ordem política e sempre que as coisas tomassem rumos das quais eles não estivessem de acordo, desfechavam sempre um golpe, impondo censura, prisões, torturas etc. Mesmo nos episódios de 1937, uma espécie de auto golpe que Getúlio desfechara contra si mesmo, teve o apoio das forças armadas. Em tempos de desenvolvimento capitalista, tem autores que chamam as forças armadas e o exército como se fossem “o Partido armado do capital”.

O Brasil tem hoje 15 oficiais generais de quatro estrelas. Oito comandam tropas diretamente, cinco comandam departamentos internos, um comanda o Estado Maior e o próprio Comando do Exército, ocupado hoje pelo general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. O período da chamada Nova República já completa 33 anos, tempo mais que suficiente para a formação de um general. Mas, vamos ver a trajetória particular do próprio chefe da força terrestre. Nascido em 1951, hoje com 67 anos, ingressou na Escola de Cadetes de Campinas com 16 anos em 1967. Após isso, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras em 1970 – AMAN – de onde saiu em 1973 como aspirante à oficial. Apenas em 1986 chega ao posto de major, já sob o governo da redemocratização, ano da Constituinte e da legalização do Partido Comunista do Brasil e demais partidos no ano anterior. Chega ao generalato apenas em 2003, sob o governo Lula e recebe a quarta estrela em 2011, sob o governo Dilma.

O que vemos nessa trajetória? Todo o alto comando da força terrestre e seus 15 generais quatro estrelas – todos, sem exceção – foram formados praticamente a partir de meados da década de 1970, sob a ditadura do general Geisel que, recentemente os documentos revelaram, decidia pessoalmente quem seriam os prisioneiros políticos que seriam assassinados (a contragosto de Élio Gáspari, que o venerava como um “moderado”). Ou seja, todos estudaram, leram as cartilhas que vinham de Washington, que mencionavam o “comunismo” como inimigo central e defendiam sempre o capitalismo em qualquer circunstância. Infelizmente, nem a Nova República, nem a era Lula alterou essa situação. Ainda que a maioria da tropa e sua oficialidade esteja restrita a atividades internas na caserna, vira e mexe vemos militares – em especial da reserva – emitirem opiniões golpistas.

Esperamos que tudo isso que vivemos hoje seja em breve encerrado, com a vitória em segundo turno das forças progressistas que devem se unir em torno da candidatura de centro e moderada do Prof. Fernando Haddad, ainda que a mídia queira classificá-lo como “radical”, “esquerdista” e outras coisas que jamais lhe cairiam bem, pois ele não é. Que vivamos tempos de volta à democracia, de volta ao estado de direito. É o que todos esperamos.

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(1) Para maiores informações visitem a página https://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Hayek a que tivemos acesso em 1º de outubro de 2018 às 9h30.

(2) Vejam esta matéria: https://www.brasil247.com/pt/247/economia/370653/Estatal-norueguesa-diz-que-Brasil-tem-melhores-%C3%A1reas-de-petr%C3%B3leo-no-mundo.htm que tivemos acesso em 1º de outubro de 2018 às 10h44.

(3) Existem muitos artigos bons disponíveis na Internet sobre esse tema. Um dos melhores, ainda que fale apenas nas cinco maiores famílias que controlam a mídia no Brasil, é este disponível aqui https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cinco-familias-controlam-50-dos-principais-veiculos-de-midia-do-pais-indica-relatorio neste endereço, da excelente revista Carta Capital a que tivemos acesso em 1º de outubro de 2018 às 10h05.

* Sociólogo, Professor, Escritor e Arabista. Colunista da Revista Sociologia da Editora Escala, da Fundação Maurício Grabois e do Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEPentre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo de 2007 a 2010.Recebe mensagens pelo correio eletrônico Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..